sábado, 26 de julho de 2008

Verso maior


                      FLOR DO MAR

                    És da origem do mar, vens do secreto,
                    do estranho mar espumaroso e frio
                    que põe rede de sonhos ao navio
                    e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.
                    Possuis do mar o deslumbrante afeto,
                    as dormências nervosas e o sombrio
                    e torvo aspecto aterrador, bravio
                    das ondas no atro e proceloso aspecto.
                    Num fundo ideal de púrpuras e rosas
                    surges das águas mucilaginosas
                    como a lua entre a névoa dos espaços...
                    Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
                    auroras, virgens músicas marinhas,
                    acres aromas de algas e sargaços...


                                           Cruz e Souza*
                               *Poeta catarinense (1861-1898).

sábado, 19 de julho de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                                              Partilha

      Trazemos nossas vertigens.
      Medos, o lado negro de nossas almas
      — dormências, temores, indecências, náuseas.
      Mas, é vossa a opção, da partilha:
      fechar os olhos, fugir, esquecer,
      virar a página, fechar o livro
      recuar, por fim, diante dos nossos abismos.

      Ai, entanto, de nós
      que trazemos sempre por dentro
      todos estes precipícios.

domingo, 13 de julho de 2008

                           O ocultado

                     Acaso sou eu quem deve conduzir a luz,
                     impor aos vindouros a minha verdade,
                     perfurar com voz persistente
                     os tímpanos dos passantes?

                     Inutilmente postado numa esquina,
                     com minha débil lanterna de palavras,
                     apenas observo:

                     passa o clarão,
                     quem o conduza
                     e quem seja conduzido,
                     passa Deus, passa o Diabo...

                     Registro resignado:
                     impregnado desta minha triste certeza
                     de que só a dor persiste.

sábado, 5 de julho de 2008


                    Gravilo

       O jovem poeta sanguinário,
       foi para a esquina escrever seu poema:
       manchou o seu papel de vermelho,
       guardou depois sua arma
       e nem assinou sua obra.
       Depois... estalou a tempestade.
       O velho mundo, o mundo todo, ruiu.
       Choveu morte do céu,
       crianças morreram,
       velhos ficaram amputados,
       cadáveres foram pro céu insepultos.
       O jovem poeta sanguinário,
       entrou para a História,
       e de lá, vislumbrou então a sua obra rubra.
       A única Poesia possível,
       o único poema capaz de mudar os homens,
       e desconcertar o mundo.

sábado, 28 de junho de 2008


                          O construtor

O construtor, toma de uma pedra, tateia,
uma a uma, infatigável, cal, cimento...
com suas mãos doloridas, ergue o seu muro,
tranca-se, isola, circunscreve, o mundo do seu quarto.
Lá fora, tão próximo, um sol doloroso bate
nas pedras; rompe o muro, abre furos, invade
a escuridão onde o construtor se isola;
e à noite, a lua tirana, com seu raio,
entra por uma fresta, choca-se
com as pedras pelo construtor erguidas.
Vem depois um vento, inundar de calafrios
a solidão do misantropo...
O construtor, ergue-se insone, toma de uma pedra,
fecha um buraco, veda uma fenda, remenda uma rachadura
que avança; calafeta uma réstia, isola-se,
reconstrói momentaneamente o seu frágil muro...
exausto, encolhe-se depois num canto do seu cubículo,
que construiu por dentro; e adormece então, mergulha
novamente no seu mundo de sonhos... adormece, engana-se.
Mas, até quando...?

sábado, 21 de junho de 2008


                           Lilith

                     Deixaste ausência apenas
                     já que a solidão há muito tempo
                     é minha
                     A solidão
                     a solidão
                     a mesma solidão de sempre
                     a escorrer pelas paredes
                     a invadir os espelhos como uma dor
                     Deixaste ausência apenas
                     passaste, como tudo mais tem passado
                     e nem ao menos disseste:
                     “Não sonhes, menino dos versos
                     serei apenas uma pausa
                     no teu tédio”
                     Passaste, como uma neblina
                     deixando a solidão
                     e esta impiedosa calmaria.

sábado, 14 de junho de 2008

Outras navegações


        A conscientização está evidentemente ligada à utopia, implica em utopia. Quanto mais conscientizados nos tornamos, mais capacitados estamos para ser anunciadores e denunciadores, graças ao compromisso de transformação que assumimos. Mas esta posição deve ser permanente: a partir do momento em que denunciamos uma estrutura desumanizante sem nos comprometermos com a realidade, a partir do momento em que chegamos à conscientização do projeto, se deixarmos de ser utópicos nos burocratizamos (...). Uma das respostas geniais é a da renovação cultural, esta dialetização que, propriamente falando, não é de ontem, nem de hoje, nem de amanhã, mas uma tarefa permanente de transformação.
 
         Paulo Freire (1921-1997), in “Conscientização”.

sábado, 7 de junho de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                          Veraflor

                          Veraflor ― por vezes ― triste
                          desfolhada, só espinhos na vida
                          ferida no sexo, pétalas no cio

 
                           Veraflor andrógina
                           presa nos seus próprios

                           canteiros, armadilhas

                           Veraflor tão diferente
                           flor presa, mira-sonha
                           outras rosas, pistilos entumecidos
                           abelha sugando néctar

                           Veraflor áspera
                           ao-pelo contato de mãos
                           rudes, jardineiros inábeis

                           Veraflor, Veraflor
                           queria uma primavera
                           em minha-tua vida
                           o perfume que floresce
                           em teu sorriso às vezes...
                           queria vê-la florescida
                           irrompendo por fim
                           este outono a dentro.

sábado, 31 de maio de 2008


                      Litanias de Sereia

Eu vi uma sereia.
Eu que tenho sido céptico,
racional, marxista e convicto...
eu, vi uma sereia.
E dela os cabelos eram longas tranças,
emergindo das ondas, seu torso nu
e sua cauda prateada recoberta de escamas...

Sim, eu vi uma sereia.
Eu que tenho sido abstêmio,
lúcido e irônico (com um pouco de ser triste)...
eu, vi uma sereia.
E ela tinha olhos verdes, ou tão lindos,
lindos de tal encanto que aquela noite toda sonhei
com belos gazofiláceos...

Eu vi uma sereia.
Eu que tenho sido frio (frio como o Ártico),
metódico, pragmático e absconso...
eu, vi uma sereia.
E os seios dela eram tão mimosos, porém
tão fartos, que neles adormeceria se os tocasse...

Ah, eu vi uma sereia.
Eu que tenho sido celibatário,
fugido das evianas artimanhas e das serpentes
de todos os ofidários...
eu, vi uma sereia.
E o seu canto era tão doce,
tão mais doce que todas as canções órficas
dos celacantos do Himalaia...

Desde então, tornei-me desumano.
Dei para andar desnudo,
flutuando por sobre os templos e os sobrados,
a dizer versos e a profetizar como um
certo santo italiano.
Desde então, abalou-se a minha credibilidade,
e os sólidos alicerces da minha cidade.

Porém sei que uma noite,
a sereia irá por fim embora
para as profundezas de um mar distante
onde repousa o seu castelo de encantos...
O que será de mim então, ó meus irmãos?
Eu que tive a fantasia,
que quase, com minhas asas rotas,
elevei-me para além da vida e da morte,
o que farei dessa realidade triste?

Tendo passado o tempo,
tenho passado sorumbático e sem encanto...
e apenas, nas noites ermas de invernia,
penso ouvir ao longe uma voz doce
vindo dizer que apenas sobrevivi ao naufrágio
ou que finalmente pereço.

sábado, 24 de maio de 2008


          Este (outro) paradoxo

                  Não creio na palavra.
                  Não posso.
                  E sobretudo, não quero.
                  As palavras não salvam.
                  Como ter por única salvação
                  Entes tão frágeis?
                  Um ser que dependa
                  Apenas de palavras
                  Está irremediavelmente perdido.
                  Por isso, não creio na palavra...

                  Ó madrugada,
                  Madrugada dolorosa e calma...
                  Por que, apesar desta certeza,
                  Insisto ainda em escrevê-las...?

sábado, 17 de maio de 2008


                                               Na noite

      Vem de longe este velho barco.
      E no velho mastro, na sua velha vela rota,
      que o vento às vezes ainda infla,
      vêem-se já os sinais de todos os seus cansaços.

      Mas, para onde vai,
      e de onde vem essa ânsia de mar alto;
      esse fugir de todas as praias habitadas,
      de todas as ilhas paradisíacas;
      esse querer o turbilhão e a solidão
      das mais impossíveis vagas elevadas?
      Talvez de um distante cais ancestral,
      talvez da brisa maternal que o embalou
      por demais longe de todos os perigos dos rochedos;
      talvez, não da ânsia de conquistar mundos novos,
      mas da mais pura cobardia.

      (E assim, como se não bastasse a solidão e a tormenta,
      há um duradouro momento na imensa noite navegante
      no qual o velho barco sente-se apenas a fugir
      e não a navegar contra a corrente).

      Noite, noite voraz:
      o velho barco triste apenas paira no horizonte,
      enquanto um sol agoniza o seu agouro,
      longe, lá no mar poente.

sábado, 10 de maio de 2008


                     Foi passado

                            Naquela velha rua sombria
                            cinco vigias sentados
                            sentidos, calados, esparsos
                            zelam cinco lares, alheios.

                            Sendo eu único passante
                            o meu passar talvez
                            o único bem acontecido
                            de cinco noites vazias.

                            Ai de mim, que passando
                            por cinco vigias, calado
                            penso a noite em que passarei
                            por uma rua vazia.

                            E que assim passando
                            por ter bem pensado
                            passo já
                            por uma rua vazia
                            e não naquela onde
                            cinco vigias sentados
                            sentidos, calados, esparsos
                            zelam cinco lares, alheios.

sábado, 3 de maio de 2008

Verso maior

      O grande desastre aéreo de ontem

                                       Para Cândido Portinari           

        Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor. Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o pára-quedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.

                        Jorge de Lima*
* Poeta alagoano (1893 -1953); poema incluído no livro “A Túnica inconsútil”.

sábado, 26 de abril de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                   A lanterna

    Entanto, eis que
    em meio às trevas da urbe adormecida
    ele ainda vocifera, tristemente
    diante das sombras surdas.

    Clamando por Altos Propósitos,
    clamando por seu outro Mundo,
    nunca construído, sempre adiado.
    Persistindo, persistindo
    como um sol sem rumo.

    Por que, ó vozes maliciosas
    vultos imprudentes do passado,
    reacender neste peito frágil
    esta brasa inútil?
    Por que não consentir fenecer nele
    todos os sonhos, vossos nebulosos desígnios?
    Por que acenar com altas cumeadas
    se dele jazem presos os pés à planície
    daquilo que outros esperam que ele seja?

    Com a tua lanterna em punho,
    o que buscas no vagar das ruas ermas,
    ó insano pregoeiro?
    um Anjo, um Anjo...

sábado, 19 de abril de 2008


               A Voz do Oráculo

Eis o oráculo:
não, nunca se erguerá teu busto na praça,
nem se registrará compêndios sobre os teus versos.
Contudo, não choramingues como uma criancinha débil
a qual acaba de ser revelado que não receberá presentes
por seu aniversário.
Na verdade, far-te-ão justiça:
as asas que lhe coube (ou será “que deste a ti mesmo”? )
não são tão grandes quanto
as daqueles que já alcançaram o Olimpo.
No entanto, tem havido noites de embriaguez
em que me tem sido proposto um enigma sobre ti:
desde quando sabes o que foi predito pelos oráculos?
Desde há muito tempo...
Porém, apesar dessa certeza, tens persistido.
Pois bem: não serás tu, justamente por ser mais árdua
a tua senda, maior, verdadeiramente, do que aqueles Vultos
que tanto amas?

sábado, 12 de abril de 2008


                          Aparas

                                             Ares.
                                             mares
                                             fim.
                                             fantasmas.
                                             ruas
                                             frias.
                                             templos,
                                             entulhos.
                                             amarguras,
                                             loucuras
                                             infindas
                                             ressuscitaram
                                             inúmeros.
                                             incerta
                                             certeza:
                                             saber
                                             iguais.

domingo, 6 de abril de 2008


             Dorme, certeza

              Dai-me, ó Senhor, enganos.
              Para que eu continue crendo
              nestes que prometem nos palanques,
              naquele amigo que era,
              meu irmão.
              Dai-me, ó Senhor
              a mais pura cegueira
              plácida, absoluta.
              Não sairei correndo nu pelas campinas
              não me trancarei num templo
              não me cobrirei de túnicas
              não profetizarei, ó Senhor
              eu vos prometo.
              Mas, dai-me Senhor, enganos:
              estou preso à vida
              e apenas preciso, mesquinhamente,
              continuar.

              Viver: enganar-se.

sábado, 29 de março de 2008

                        Anfion after

               Não o escolhido de Apolo,
               Anfion, este que, num sopro,
               forja a sua frauta rústica.
               Mais árida ainda sua senda,
               este, em sua Tebas desértica,
               jaz onde todos os deuses estão
               mortos.

               Não grandiosa muralha ergue
               a melodia que o seu lábio solfeja:
               aqui, só para túmulos erguem-se
               pedras.

               Insano, há milênios sua persistência provoca
               a escuridão das locas, dos covis, das covas
               dos escorpiões, dos gafanhotos, das cobras.
               Inútil, apenas, esse concerto para surdos.

               Por que não se cala essa melodia?
               Louca, louca, essa teimosia calma
               dos que não serão grandes, nem astros,
               dos que não ficarão gravados no bronze;
               estúpido esse desejo de ser além
               do que pode suas ínfimas asas...

               Entanto, ele toca, pobre artista:
               constrói a si mesmo, na sua fantasia;
               faz soar seu débil gemido, que o Deserto vara
               enquanto a música não pára.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Outras navegações

Claustro do Convento Franciscano, Penedo-Alagoas
(Foto da década de 90)

sábado, 15 de março de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                       Terçã

        Nós, os meninos
        padecemos de grave doença:
        essa febre de consertar o mundo.
        Mas, que o nosso mal
        não provoque a insânia dos sanitaristas:
        a nossa febre tem cura,
        e a cura é a inevitável calma, da velhice.
        No mundo, abundam os casos dos recuperados,
        são estes saudáveis velhos decrépitos-reacionários,
        que num passado remotíssimo, tiveram todos os sintomas,
        do mal, todos os males.
        O tempo, porém, espera ainda.
        Aproveitemos então nosso delírio,
        com todos os devaneios,
        com todos os suores noturnos,
        com todas as insônias do mundo,
        com todas as quedas e escoriações possíveis.
        Breve estaremos também curados, calmos
        imbecis, tranqüilos, saudáveis, reacionários.
        A cura é inevitável e virá mesmo.
        Enquanto isso, aproveitemos:
        o mundo talvez não resultará melhor por conta disso,
        mas tamanho espalhafato servirá talvez
        ao menos, para a proliferação persistente do vírus
        (já que esta febre boba pode contagiar
        todos os impúberes, presentes e vindouros).
        E assim, no futuro
        quando a santa cura tiver por fim
        em nós se instalado,
        encontraremos um desses meninos contagiados,
        que do alto de sua febre apontará
        um dedo duro para a nossa cara reacionária,
        e dirá, bem revoltado:
        — Vós, que no passado quisestes consertar o mundo,
        não passais hoje de um velho imbecil,
        decrépito e reacionário.

sábado, 8 de março de 2008


                               Árvores

Num dia de verão, dentro dos meus olhos,
negras nuvens encobriram o sol que para todos brilha,
e eu caminhava pela estrada onde todos passam,
com o peso da fadiga sobre os ombros,
e o peso dos meus ombros sobre mim mesmo.
Tudo era escuridão na claridade.
Tudo era nada e nada a esvaziar-me.
A luta: o esforço último e desumano de não me vergar.
Ergui os olhos de terra e chão cansados,
olhei o horizonte por entre escuras nuvens, e vi
diante de mim uma enorme árvore, verde como esperança,
que sorrindo feliz pelas folhas e pelo tronco, disse-me
com a sua voz de farfalhar ao vento:
“Senta sob a minha sombra!
Toma minha calma pelas minhas folhas,
e minha força pelos meus galhos.
Toma a minha verdade como tua: o sol
brilha pelos bosques, veredas, abismos e caminhos,
e toda a luz que há em tudo, sai dos teus olhos”.
Olhei o horizonte por entre as nuvens claras, e vi
diante de mim, a luz dos meus olhos.
Tudo era tudo a preencher-me,
e eu caminhava feliz por um caminho de luz. Não mais
baixei os olhos, nem os tirei das belezas da estrada...
A gratidão: o esforço saudável e humano de não me esquecer.
Lancei um olhar ansioso em busca da árvore amiga,
e deparei-me, com a mesma árvore do outro dia,
tristonha e pálida. O peso enorme de si mesma sobre si,
as lágrimas como gotículas de orvalho de prata
a escorrer pelas folhas frias.
Sorri feliz pelos olhos e pelos poros, e com voz
trêmula e humana, disse-lhe:
“Banha-te sob a luz dos meus olhos!
Toma a minha energia pelas minhas mãos, e da terra
que te coloco sobre as tuas raízes nuas.
Toma minha força das palavras de minha boca.
Toma a minha verdade como tua: o sol
brilha pelos bosques, veredas, abismos e caminhos,
e toda a luz que há em tudo, sai das tuas folhas”.
Olhamos o horizonte por entre as nuvens claras.
Tudo se fez azul na imensidão.
Tudo era tudo a preencher-nos,
caminhávamos felizes por um caminho de luz
num dia de verão...

domingo, 2 de março de 2008


              Luz, estigma

Porque aqui
a luz é sempre muito parca.
Aqui a luz pende em réstias
de furos numa escura cobertura,
sobre uma superfície em penumbra.

Porque aqui
em volta de uma luz assim mortiça,
aglomeram-se por vezes uns famintos poucos
que em desespero tentam vislumbrar,
pelos tênues orifícios,
um breve momento de infinito.

E cai a luz,
aqui sobre um crânio calvo,
ali, sobre uma magra espádua,
além, os rins de um velho cinge.

(Na verdade, a pouca luz que me coube
mal dá para urdir estes versos toscos).

E giram, giram
e assim girando em torno
dos minúsculos pontos luminosos,
são eles tocados de luz ao acaso,
enquanto nas alturas desanda
o infinito orbe.

(Sim, os deuses todos foram perversos conosco...
Por que abrindo em precipício
esta escuridão que nos encobre,
não deixaram eles que nos inundasse
a mais completa luz?).

Eis entanto que aqui, poucos são os chamados
e muito menos os escolhidos. E ainda assim,
aqueles que foram tocados pela claridade,
não a recebem como uma dádiva
mas sim, como um estigma.

                     Do Caminhador

Na noite do Grande Deserto,
o Caminhador, vaga pelas areias ondulantes
com a sua solidão, com a sua dor, sua tormenta;
e quando uma fria aragem sopra do oriente,
o Caminhador, subindo a um monte,
ergue sua mão esquálida,
desamparando seus olhos cegos
que a areia bate, que a areia, areia;
e com a sua mão erguida assim para as alturas,
por entre o caos da ventania, o Caminhador,
espera uma folha desprendida de uma árvore
que só em sua quimera existe além...
Assim, o Caminhador, toma por vezes dessas folhas
que o acaso recolhe à sua mão cansada
de esperar tanto; e vergado pelo tempo, o Caminhador,
recolhe-se a um breve abrigo, para contar as folhas
desta sua pobre pescaria.
Passa assim seu tempo, o Caminhador...
a ver as suas folhas e separá-las,
por sua cor, sua textura, pelo sabor, pela amargura
organiza o seu caos noites inteiras
nesse labor inútil de desventuras, o Caminhador.
Pobre Caminhador,
este folhedo que possui como tesouro
é tudo o que lhe resta,
é seu cobertor, será seu túmulo,
sua glória que não terá.
Feliz Caminhador,
o deserto lentamente o absorve,
e um dia, finalmente
a grande ventania o levará
com suas folhas, como a areia...

                      Minha herdade

          Oh, alva planura, minha herdade...
          Parece-me terem dito:
          – É isto o que lhe cabe.

          Desde então tenho vagado por entre tuas farpas;
          tentado nas noites ermas
          encher de palavras teus quartos vazios;
          com minhas mãos desnudas
          buscado fazer germinar de tua aridez
          flores, ramas de hera, qualquer coisa viva.

          Herdade, herdade
          eu te maldigo, eu te reverencio;
          temo a solidão dos teus escombros,
          as mil portas de teu labirinto de espinhos;
          o frio noctívago de teus campos incultivados,
          teu cheiro de coisas mortas, bolor de velhos
          escaninhos.

          Herdade sombria,
          minha inutilidade;
          preso em ti
          vivo em ti, liberto;
          meu tudo
          meu nada,
          sucessão árida
          desta triste espera.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Poemas do livro "Ruas e rios" (1994)











Capa do livro "Ruas e rios"; desenho de autoria
do artista plástico penedense Joan Barros


 
          Música para viagem ou...

       Ruas e rios & Outros Poemas do Chico penedense, salta-nos aos olhos como: um grito MODERNO ecoando na rocheira ou música para viagem. Esse paroxismo habita por entre as pedras sedimentadas pelo tempo, e nauseosas pelo conformismo penedense. Explorando sistematicamente todas as variantes que lhes chegaram às mãos, torna-se Chico o mais significativo representante dos diluidores (classificação poundiana) em nossa terra.
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       O nosso Chico, assim, nos impõe com prazer uma vertigem, ao nos conduzir ao emaranhado de categorias e meneios de seus respectivos valores com que exterioriza todas as coisas do seu mundo.
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      Ezra Pound dizia que a beleza poderia ser definida como uma “adequação ao objetivo”. A poesia do nosso Chico não perde isso de vista, logo, não passeia pelo terreno do Kitsch.

                    Sérgio Paulo R. Nascimento*

*No Prefácio do livro “Ruas e rios”; Sérgio Paulo é jornalista, poeta e intelectual penedense.









 




Ruas e rios

Na rua noturna da minha cidade:
a lua sobre a rua azul de paralelepípedos incertos,
silêncio transpirando das lâmpadas sonolentas
de vapor de mercúrio;
as casas dormem numa ressonância surda

de cansaço humano,
e ao fundo, um rio velho embala as margens de seu passado
num passar interminável de recordações profundas.
Tristezas?
Não... Os velhos rios são eternamente felizes.
Só nas ruas noturnas (vistas de uma janela) há tristezas.
Só nas ruas que se prolongam como noites.
Só nas nossas ruas interiores:
das incertezas,
dos silêncios, das transpirações e sonolências,
dos vapores, dos mercúrios,
das ressonâncias dos rios velhos e dos cansaços humanos.

Mas, sempre amanhece (por uma fresta no telhado)
um outro mesmo Sol,
e então não há mais ruas noturnas:
depois do amanhecer
todas as ruas são como um rio velho...


Amor apenas

Ao céu, ao rio e às pedras
que construíram e constituem
as casas e as ruas da minha cidade

Para saciar essa vontade insana de sorver teus ventos,
escalei avidamente a torre deste templo.
E aqui, já do alto, adormecida e bela te contemplo nua,
com as lindas linhas do teu corpo nu imitando ruas.
Ah! me enfeitiçaste, formosa dama...
Vou me jogar torre abaixo:
só assim poderei descansar minhas carnes
nas entranhas tuas.
E quando isso acontecer, ó cidade minha!
— esquenta com tua terra quente essa minh'alma fria.















Despertação

A todos aqueles que se perderam pelas veredas

De repente, no meio da noite,
as paredes do seu quarto flutuam ilógicas sobre ele.
Ergue-se, e vaga solitário pelos seus escombros:
tudo é transparências e brumas,
tudo é incerto na sua terrível lucidez.
Procura algo sólido onde prender suas mãos invisíveis,
procura uma certeza que ao menos o engane,
procura sonhos, esperanças, quimeras...
Mas tudo é tão ilogicamente real nos devaneios
desta sua noite de insônia:
as ruas vazias-incertas erguem-se diante dele
terríveis como feras;
o rio, velho amigo, é de vinho, de planos
de fugas e de velas...
Não sabe se deve fugir, dormir e sonhar
ou se tudo é pesadelo e precisa acordar...
Não sabe se lhe dói mais
a lucidez ou a loucura.
Não sabe em qual delas está
sua cura...

domingo, 17 de fevereiro de 2008



Jovens ruas

Na noite molhada de chuva,
ruas caminham úmidas pela cidade sombria.
Perdem-se pelos becos incertos,
vagam periféricas pelos cruzamentos confusos,
procuram traçar numa esquina suas rotinas.
Para onde vão aquelas ruas incertas que não vejo
seus destinos?
Todas as ruas da cidade têm no fim uma certeza,
só aquelas jovens ruas não sabem caminhar
pela cidade velha sozinhas...
Quando se construíram, a cidade-mundo já era
uma anciã débil-confusa.
Ninguém traçou pra elas planos lógicos.
Ninguém lhes deu mapas de seus becos.
Agora, sempre que chove (e a chuva sempre vem),
as ruas jovens ficam alagadas, bêbadas,
inseguras, vazias
— esperando um Deus divino ou infernal,
que lhes dirá um dia:
“É por aqui, ruas minhas”...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Verso maior













            
Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das

                                                                                 [etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
                                                                                       [sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

              Fernando Pessoa*
                          *poeta português (1888-1935); poema por Álvaro de Campos.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Do livro "Ruas e rios" (continuação)
















Escombros

Vago por entre meus escombros
com as incertezas das ruas por dentro de mim.
Tudo cai, tudo jaz, na minha cidade vazia:
casarões, glórias, memórias, templos, pretensões
— lembranças de um passado que não vivi.
Na mais terrível noite,
na mais clara manhã
— tudo cai, tudo desmorona vergonhosamente.
Será que só eu vejo?
Será que é só em mim que tudo cai?
Será que me invadem ou projetam-se de mim
tantas ruínas?
Nunca saberei, apenas olho passivamente...
Tudo é incerteza, dúvida, destruição.
Tudo cai, tudo jaz, na minha cidade-abandono.