sábado, 4 de julho de 2009

Poemas do livro "Beco e labirinto" (2004)












Capa do livro "Beco e labirinto";
concepção gráfica do autor


Um pássaro poeticamente preso

              O livro Beco e labirinto, de Francisco Araújo Filho, é uma obra que chega madura a meus olhos. Os quarenta e seis poemas [...] traem uma inequívoca habilidade para articular a tradição e a modernidade, no melhor sentido que ambos os termos podem apresentar. Tradição como consciência histórica do passado e novidade como um olhar atual sobre esse ontem necessário.
       Francisco Araújo é um poeta consciente da tradição em que se inscreve: em seus versos, passeiam referências mitológicas e valores greco-latinos. Mas ele é, igualmente, o poeta que compõe um discurso que, no hoje das formas e valores, observa a tradição da paisagem e dos seres modificar-se e esvair-se.
       .................................
       [...] gostei de ler seus poemas; um bom poeta é, sempre, bem-vindo; sinal de que as palavras continuam vivas, a poesia forte e o cenário sem tantas ruínas.
 
Profª Vera Romariz*

*Trechos do prefácio do livro "Beco e labirinto"; prefácio de autoria da Professora Vera Romariz (Doutora em Literatura pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL).

sábado, 21 de março de 2009


      Da eterna Dor, e da eterna Ira

Temer a morte, fugir à morte!
Sabino Romariz

         Novamente, venho morrer
         a mesma morte insistente.

         É preciso morrer, lentamente,
         me dizem...
         Então eu morro,
         mil vezes, tantas vezes quanto
         as vossas paciências acharem possíveis.

         Mesmo sabendo que essa minha morte,
         assim inútil, a ninguém incomoda,
         eu morrerei ainda mais um pouco...

         E nos momentos funéreos,
         o meu sorriso de escárnio
         (ah, o doce sabor da consciência...)
         fará das minhas mortes, ao menos,
         (já que assim quereis a minha glória)
         acontecimentos bizarros, sublimes, diferentes
...

domingo, 8 de março de 2009


                         Calíope

             Vem, ó Calíope
             como uma mãe afagar estas frontes febris,
             reclinar no seu colo morno nossos cansaços,
             cobrir com o seu manto estas cabeças
             cansadas de sonhar tanto.
             Campos, paisagens, ideais, cânticos.
             Temos sido tantos, e temos vindo
             e morrido tanto, e fracassado tanto.
             Concretos-pop’s-práxis-beat’s-cordéis-caóticos.
             Vem, ó Calíope
             olhai por vossos filhos,
             olhai por nós, olhai por mim...
             E dai-nos delírios,
             para que possamos suportar a dor
             que gera os vossos Cânticos.

sábado, 21 de fevereiro de 2009


       Este (outro) paradoxo

                Estas palavras,
                escondem a dor.
                Sim, são também disfarces.
                Milenarmente têm pensado
                a indiferença da pólis,
                ao expor-lhe as feridas.

                (Oh vontade sádica e santa
                de incinerá-las
                e deixar a cidade morrer desolada...)

                Mas é que, existe uma vocação
                para a covardia em quem escreve
                e que o suicídio proscreve.

sábado, 14 de fevereiro de 2009


Última estrela
 
Argonauta da Pobre Deusa,
Do cais partido fiz-me ao mar.
E na noite alta vi nascer,
Por sobre o mastro solene
Da minha nau triste,
Ó minha estrela guiante, a tua luz.

Sim, foste o meu rumo e meu porto,
Meu abrigo, minha nobreza e salvação,
Archote heráldico a luziluzir no breu abissal.
Meu continente e meu levante,
Meu astrolábio, minha esperança e oblação,
Foste o pórtico altivo a fulgurar, lá no poente.

E assim, em meio às tétricas vagas elevadas,
Com minhas mãos frágeis e distantes,
Quantas vezes não tentei protegê-la
Das andantes negras nuvens sublevadas;
Quantas vezes, com voz débil e bailados loucos,
Não conjurei, na noite, a não obscurecê-la, a lua
E, ao meio-dia, a não apagá-la, o sol?

Contudo, caíste
Caíste e caíste, ó minha estrela...
Quando se deu tal prodígio,
Como foi possível empanar-se o teu fulgor?
Pois não foram as procelas, nem nuvens
Nem sol letal, nem lua tirana
Ou nada que me venha da fora noite:
Foi em mim que estás morrendo...
E por motivos tantos e por tão pouco,
Por muito longa navegação,
Por saber-me apenas mais um navegante
E pela imperícia da tripulação que tenho
– Capitão, marujo, escrivão, gajeiro – sido.

Ulisses-quase-náufrago,
Abandonado aos ventos e às calmarias,
Eis-me aqui por fim, a escurecer por dentro,
A aguardar indiferente rochedos altos,
E ilhas traiçoeiras dos mapas ocultos
Que possam fazer em pedaços o que resta
Desta nave inútil.

Ó musas,
Musas todas que velais do alto
Este naufrágio lento,
Dai-me, por misericórdia, finalmente
A escuridão do meu silêncio...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Outras navegações


         Na verdade, o homem não busca nem o prazer nem a dor, mas sim apenas a vida. O homem procura viver intensamente, completamente, perfeitamente. Quando conseguir fazer isto sem lesar a liberdade alheia e sem nunca ser lesado, quando todas as suas atividades só lhe proporcionarem satisfação, ele será mais saudável, mais normal, mais civilizado, mais si mesmo. A felicidade é a medida pela qual o homem julga a natureza e avalia até que ponto está em harmonia consigo mesmo e com o ambiente.

                 Oscar Wilde (1854-1900), in “Aforismos”.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


     Poema do Poeta e a Musa

               A Musa,
               do alto de seu arbítrio,
               vendo o Poeta, indolente, reclinado,
               jogou-lhe das alturas sua sentença:

                – Ó relapso filho e dileto,
                hoje não terás poesia.
                Para ti hoje, filas demoradas,
                promissórias, requerimentos...
                O teu mais duro cotidiano.
                Apenas.

                E o Poeta,
                abatido, foi bater-se com a vida,
                sem ao menos um verso
                para entorpecê-lo ao romper
                da madrugada, e da insônia
                que o fustiga.

sábado, 24 de janeiro de 2009


     Poema da Musa e o Poeta

     O Poeta,
     foi bater-se com a vida:
     filas demoradas, promissórias, requerimentos...
     No seu mais duro cotidiano, por fim, perdeu-se.

     Enquanto, porém, o Poeta
     esquecia assim, relapso, a poesia,
     a Musa, jazia esquecida, agonizante,
     e morrendo, desfazia-se
     em redemoinhos de fumaça.

     Eis entanto,
     que tendo chegado a noite e o cansaço,
     o Poeta, o servo triste,
     viu, talvez num devaneio, a agonia
     e a agonia da Musa, que morria...

     O Poeta,
     por fim, tomado de pena,
     trôpego, erguendo-se,
     foi escrever, ainda assim,
     estes versos tristes:
     para que a Musa não morresse.

sábado, 17 de janeiro de 2009


                      Intermezzo

          Um pequeno quarto:
          os objetos metodicamente dispostos
          sabem de cor os seus espaços.
          Ou, talvez, uma máquina terna:
          uma velha caixinha de música
          a tocar uma velha valsa triste...

          Assim é o mundo do poeta.
          O velho pai que parte,
          uma nova musa que faz morada...
          e jaz em caos o velho quarto tranqüilo,

          eis emperrada a velha máquina de chorar versos.

sábado, 3 de janeiro de 2009


                                 Exilium

                            Quando se deu a expulsão,
                            não se sabe
                            (foi elevando-se
                            como uma nave cadente).
                            Agora vislumbra,
                            do alto da sua queda,
                            o mundo externo e girante
                            da humanidade prosaica.
                            Inutilmente, daqui, pondera
                            seu movimento perfeito
                            (ó felicidade cotidiana,
                            tão desejada ainda...).
                            Entre o desespero
                            e a dor recíproca da indiferença,
                            gravita na atmosfera
                            nefelibata.

sábado, 27 de dezembro de 2008


      Morte, do lado de dentro do avesso

Havia outra cidade por sobre
Captava, nas manhãs, madrugadas
Mágica invadindo, alma, alma
Uma felicidade sem porquê, intensa
Morreu esta cidade, dentro
Como um sol por trás do horizonte
Morreu magia, projetos futuros
Sonhos perdidos, ideais, morreram
Por muito duro esse caminho de nada
Sem dores, sem tragédias, sem vitórias
Sem amor, ideal, fé, certeza, inocência
Caminho sem caminho, via vazia, devastada
Segue, dura, inumano, inútil, fria
Havia outra cidade por sobre
Derruída jaz, só, de pedra
Só de vento, grades oxidadas, desmoronamentos
Memórias destruídas, passadas passadas ecoam ainda
Morto, morta, seguem, persistem
Inertes, apodrecem, dentro um do outro

sábado, 20 de dezembro de 2008


                  Na escória noturna

               Na noite da velha cidade,
               um ébrio desce uma rua torta;
               e entre um tombo e uma poça,
               o ébrio, do fundo de sua lucidez
               alcoólica, vê a cidade desmanchar-se.
               Dos sobrados mais altos caem rebocos,
               grades enferrujam, o Passado envergonha-se...
               O ébrio, que na paisagem cumpre apenas
               o seu risível papel de ébrio transeunte,
               interrompe, apesar do sono e da insônia,
               o seu torto caminhar, e indaga
               antes do providencial vômito:
               – Onde estão os donos destas casas,
               que dormem ainda, ante a iminência caótica?!
               Mas a cidade é silêncio...
               os donos das casas altas dormem
               ausentados, enquanto, próximo ao ébrio,
               dentro, a cidade cai, e morre...
               O ébrio, sem respostas, segue o seu caminho
               melancólico, afunda-se na noite e se dissipa,
               enquanto na escória noturna, esquecido
               sob uma marquise decadente, um mendigo,
               desperto pela indagação do pobre bêbado
               passante, ergue a cabeça, em meio às ruínas,
               segue, com o olhar, a solidão do outro,
               que acaba de tombar numa esquina.

sábado, 6 de dezembro de 2008


                       Nas ruínas

Por entre as paredes do velho casarão da Nilo Peçanha,
vagueiam as almas pobres dos operários;
voejam as cinzas da extinta chama de sonhos passados.
A alma do velho Antônio Pedro esgueira-se por uma fresta,
sua arte enorme a pesar-lhe como um fardo;
olha, às vezes, do velho sótão, a cidade mesquinha
que agora, mais do que nunca, não o vê.
Há também o eco das ladainhas dos católicos
que se ouve ainda nas noites de invernia,
quando o vento bate no muro morto.
O velho casarão da Nilo Peçanha ostenta ainda, lá no alto,
seus bustos, de um cego, de um velho surdo, de príncipes mudos,
que olham inutilmente tudo, e dizem, aos culpados transeuntes,
que aqui jaz um monumento, o túmulo, o testamento
de tudo que na cidade é morto.

12.09.93

sábado, 29 de novembro de 2008


            Pássaros presos

           Era preciso voar mais alto, meus irmãos.
           Vencer as alturas, conspurcar os cimos,
           reconstruir a cidade, desempanar o sol.
           Prendem-nos entanto estas asas rotas.
           Rastejamos terrestres impotentes,
           arranhamos na areia tétrica
           nossas pobres asas.
           O que será de nós, meus irmãos,
           pássaros presos...
           Nossa única grandeza
           esta consciência dolorosamente suportada
           de nossas asas atrofiadas.
           A possibilidade, talvez, de traçar
           num grandioso vôo raso
           uma ponte,
           entre esta geração exangue
           e uma nova revoada.

sábado, 15 de novembro de 2008


                    Dos bons frutos

Bem-aventurados os bons frutos
que morrem ainda na floração
Levam a pureza imaculada e indômita dos pomares.
Antes da mão,
antes do lucro,
do paladar,
antes da dor,

antes do vil amadurecer.

sábado, 8 de novembro de 2008


                As ervas, e as flores

    As ervas daninhas comandam o pomar,
    sobem pelos muros, invadem os canteiros,
    crescem, abundam, vicejam nas terras mais férteis,
    apossam-se das sombras e das águas mais frescas.
    As ervas daninhas dominam as hortas,
    truncam a seiva benfazeja, sugam, devoram, asfixiam,
    determinam o êxito das safras, os grandes lucros das colheitas.
    As ervas daninhas erguem-se nas alturas,
    assentam-se nos mais altos postos,
    erguem cercas, proliferam nos latifúndios.

    As ervas daninhas regem o tudo,
    e assim, em volta delas,
    gira, interminável, o mundo...

    Mas, as flores, as plantas úteis?
    São absurdos da delicadeza,
    são erros malnascidos,
    que excluídos o acaso fez nascer
    por entre a ramagem malfazeja.

sábado, 1 de novembro de 2008

Verso maior


                    DELÍRIO

      Nua, mas para o amor não cabe o pejo
      Na minha a sua boca eu comprimia.
      E, em frêmitos carnais, ela dizia:
      — Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

      Na inconsciência bruta do meu desejo
      Fremente, a minha boca obedecia,
      E os seus seios, tão rígidos mordia,
      Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

      Em suspiros de gozos infinitos
      Disse-me ela, ainda quase em grito:
      — Mais abaixo, meu bem! — num frenesi.

      No seu ventre pousei a minha boca,
      — Mais abaixo, meu bem! — disse ela, louca,
      Moralistas, perdoai! Obedeci....


                                Olavo Bilac*

                                                    *Poeta e jornalista carioca (1865-1918)

sábado, 25 de outubro de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                  Epitáfio para meus versos

                                        Ao amigo Maurício Gomes Filho
                                        Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
                                        Enterro de tua última quimera.

                                     Augusto dos Anjos

                       Ah, meus pobres versos...
                       somente as traças
                       e o silêncio indiferente das estantes
                       vos esperam realmente.
                       Já tive ilusão,
                       já até vos tracei planos
                       e quimeras...
                       Isto há tanto tempo
                       que nem mais tenho enganos.
                       Não temeis, porém, versos meus
                       este inevitável silêncio
                       que vos espera: tereis a mim...
                       E assim, seremos tantos
                       a olhar o nosso enorme nada,
                       como um suicida olha a calçada
                       (para a qual saltará)
                       de sua fúnebre janela...

sábado, 11 de outubro de 2008

                     Breve, cotidiano

                 Passaram:
                 a moça que venceu o concurso de beleza,
                 o poeta do primeiro livro,
                 o cantor ganhador do festival da temporada.
                 Iam por ruas diversas da cidade,
                 mas levavam em comum
                 um certo olhar de quem sonhava.
                 Impregnados de futuro,
                 passaram, deixando um rastro
                 misteriosamente divino na cidade.

                 Mas os caminhos por onde seguiam
                 foram dar numa mesma praça:
                 a moça tropeçou no salto
                 que lhe foi muito alto;
                 o poeta, implicou com um cão, por ter,
                 descuidado, dele pisado a cauda;
                 e o cantor sofreu um acesso
                 de tosse de fumaça...

                 Passaram...
                 e só então os cotidianos da cidade
                 prosseguiram,
                 irremediavelmente humanos...

sábado, 4 de outubro de 2008


                      Dorme, certeza

              Aguarda com paciência a tua tragédia.
              Enquanto isso, acende o teu cigarro,
              escreve teus poemas, assiste a um filme,
              ergue revoluções, em nome da civilização,
              do progresso, mata, toma uma pílula, dorme.
              Tens pelo menos a incerteza.
              A tua tragédia virá, inesperada.
              Enquanto isso, segue, mergulha no teu cotidiano...

sábado, 27 de setembro de 2008

                 
              A velha encruzilhada

Foi uma vez,
(E não direi que sonhava:
No céu brilhavam estrelas
E o sol, sobre uma colina, pairava)
Havia dois caminhos:

“Vinde, sede medíocre!”
Falou-me aquele que trazia anéis nos dedos
E arrebanhava habilmente sua numerosa prole.
“Vinde, este é o caminho da maioria,
E aqui, ao menos, não vos faltará companhia.”
Não fui, e este seguia
Por um caminho sem espinhos...

“Vinde, sede nobre!”
Falou-me, por sua vez, aquele encanecido ancião,
De longas barbas, as vestes rotas...
“Vinde, este é o caminho da solidão
E a posteridade, quem sabe, nos espera.”
Não fui, e este seguia pelo caminho do incerto
Que conduzia às alturas ou a um abismo sem fundo.

Despertei, ou antes, adormeci...
E não fui por nenhum daqueles caminhos.
Sei apenas que a velha encruzilhada
Ainda está lá, e que me aguarda

Todos os dias.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008


                    Para os que lutam

       Vai companheiro, para a tua luta
       na tua selva de pedra.
       Tens a tua vontade e algumas velhas filosofias.
       Tens o teu suor, tuas mãos calejadas,
       os teus instantes de febre.
       “A vida é só isso”.
       Ora, quem não o sabe?

       Por isso ergui o meu canto
       meus castelos de areia
       meu jardim de rosas rubras
       meu pranto, meu acalanto.

        A vida não me suporta por tanto,
        e me destruirá, por inútil.

        Contudo, vejo o teu delírio,
        os teus solitários cansaços.
        És um homem apenas, perdido como tantos outros.
        Toma então este canto pobre. Que ele te sirva
        ao menos, nas tuas noites de agonia.

sábado, 13 de setembro de 2008

Outras navegações


Foto de Penedo durante cheia do rio São Francisco.
Na imagem, aspecto da Av. Beira Rio inundada pelas águas. (Década de 1930).

sábado, 6 de setembro de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                    Para quem
      
      Esta noite
      Este canto solidário
      Para os que vagam tristes
      Para os que decidiram por fim
      Lançarem-se da última janela
      Para a rota vertical rumo à dura calçada
      Para os tristes insones que pela primeira vez
      Vislumbraram o nada da vida
      Para os que jazem presos à vida
      Pelos lábios purpúreos de uma vagina
      Ou ao fundo opaco de um copo
      Para os que vagam ébrios
      Pelas cloacas das grandes urbes
      Para os que morreram muitas vezes
      E ai deles vezes infindas ressuscitaram
      Para os que perderam seus princípios
      Para os que se traíram
      Para os que perderam a mãe
      Para os que perderam o último pênalti
      Para os que perderam o último trem
      Para os que perderam todas as certezas
      Para os que perderam a poesia também
      Para os que perderam
      Para os que ganharam a morte
      Para os que ganharam... uma sogra
      Para todos estes, e os outros
      Este cântico
      Este pouco
      Esta certeza de sermos muitos
      E de que a noite dura
      Nos é pouca.

sábado, 30 de agosto de 2008


                   Quem será

           Será aquele que
           se trancará com terríveis verdades,
           intimamente, sem perder contudo
           a lucidez, a leveza, o doce-árduo sabor
           de viver;
           e ainda dirá,
           e dirá sempre,
           e para todos:
           Vejam meus irmãos: apesar de toda dor,
           é possível, sim, é possível...

           Isto, mesmo nas noites mais terríveis.

sábado, 23 de agosto de 2008


                           Vontade

                     Sou poeta.
                     É o meu árduo empreender:
                     poetizar a vida.
                     Mas a vida é dura.
                     E é preciso ser duro;
                     duro, de uma inquebrantável ternura
.

sábado, 16 de agosto de 2008


                     Desmotivo

                   Eu canto porque não sei dançar.
                   Tenho o corpo lívido, mãos trêmulas,
                   a cabeça dura — uma carapaça
                   de vidro.

                   Eu quase não sou desse mundo.

                   Vago pelas noites ermas,
                   o crânio exposto às intempéries,
                   pelas alamedas, trigais, vielas.

                   Eu quase sou um louco.

                   Nunca vou,
                   nunca fico,
                   por fora das instituições-hospícios
                   persistindo.

                   Eu sou: poeta.

sábado, 9 de agosto de 2008


                           Venda

                       Disseram: “Lá vai o poeta vender
                       — embrulhada em livro —
                       sua alma, para ganhar a vida.”

                      Não, eles não sabem...
                      quantas vezes o poeta preferiu
                      morrer, a ter que vender,
                      que fosse, o mais desvalioso
                      de seus pertences;
                      uanto teve ele de conhecer
                      a sua alma-mercadoria
                      — lidando resignadamente
                      com a morte e a loucura —
                      para melhor perdê-la para todos.

sábado, 2 de agosto de 2008


                  Se assim fosse

                               e me deitaria
                               sobre um alvo lençol
                               depois de um longo banho
                               higiênico, pragmático

                               depois
                               o fim do desperdício
                               uma breve correção
                               de rumo

                               o corpo obtuso libertado
                               a alma tão incerta
                               extinta

                               liberto de mim
                               prosseguiria
                               o mundo

sábado, 26 de julho de 2008

Verso maior


                      FLOR DO MAR

                    És da origem do mar, vens do secreto,
                    do estranho mar espumaroso e frio
                    que põe rede de sonhos ao navio
                    e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.
                    Possuis do mar o deslumbrante afeto,
                    as dormências nervosas e o sombrio
                    e torvo aspecto aterrador, bravio
                    das ondas no atro e proceloso aspecto.
                    Num fundo ideal de púrpuras e rosas
                    surges das águas mucilaginosas
                    como a lua entre a névoa dos espaços...
                    Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
                    auroras, virgens músicas marinhas,
                    acres aromas de algas e sargaços...


                                           Cruz e Souza*
                               *Poeta catarinense (1861-1898).

sábado, 19 de julho de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                                              Partilha

      Trazemos nossas vertigens.
      Medos, o lado negro de nossas almas
      — dormências, temores, indecências, náuseas.
      Mas, é vossa a opção, da partilha:
      fechar os olhos, fugir, esquecer,
      virar a página, fechar o livro
      recuar, por fim, diante dos nossos abismos.

      Ai, entanto, de nós
      que trazemos sempre por dentro
      todos estes precipícios.

domingo, 13 de julho de 2008

                           O ocultado

                     Acaso sou eu quem deve conduzir a luz,
                     impor aos vindouros a minha verdade,
                     perfurar com voz persistente
                     os tímpanos dos passantes?

                     Inutilmente postado numa esquina,
                     com minha débil lanterna de palavras,
                     apenas observo:

                     passa o clarão,
                     quem o conduza
                     e quem seja conduzido,
                     passa Deus, passa o Diabo...

                     Registro resignado:
                     impregnado desta minha triste certeza
                     de que só a dor persiste.

sábado, 5 de julho de 2008


                    Gravilo

       O jovem poeta sanguinário,
       foi para a esquina escrever seu poema:
       manchou o seu papel de vermelho,
       guardou depois sua arma
       e nem assinou sua obra.
       Depois... estalou a tempestade.
       O velho mundo, o mundo todo, ruiu.
       Choveu morte do céu,
       crianças morreram,
       velhos ficaram amputados,
       cadáveres foram pro céu insepultos.
       O jovem poeta sanguinário,
       entrou para a História,
       e de lá, vislumbrou então a sua obra rubra.
       A única Poesia possível,
       o único poema capaz de mudar os homens,
       e desconcertar o mundo.

sábado, 28 de junho de 2008


                          O construtor

O construtor, toma de uma pedra, tateia,
uma a uma, infatigável, cal, cimento...
com suas mãos doloridas, ergue o seu muro,
tranca-se, isola, circunscreve, o mundo do seu quarto.
Lá fora, tão próximo, um sol doloroso bate
nas pedras; rompe o muro, abre furos, invade
a escuridão onde o construtor se isola;
e à noite, a lua tirana, com seu raio,
entra por uma fresta, choca-se
com as pedras pelo construtor erguidas.
Vem depois um vento, inundar de calafrios
a solidão do misantropo...
O construtor, ergue-se insone, toma de uma pedra,
fecha um buraco, veda uma fenda, remenda uma rachadura
que avança; calafeta uma réstia, isola-se,
reconstrói momentaneamente o seu frágil muro...
exausto, encolhe-se depois num canto do seu cubículo,
que construiu por dentro; e adormece então, mergulha
novamente no seu mundo de sonhos... adormece, engana-se.
Mas, até quando...?

sábado, 21 de junho de 2008


                           Lilith

                     Deixaste ausência apenas
                     já que a solidão há muito tempo
                     é minha
                     A solidão
                     a solidão
                     a mesma solidão de sempre
                     a escorrer pelas paredes
                     a invadir os espelhos como uma dor
                     Deixaste ausência apenas
                     passaste, como tudo mais tem passado
                     e nem ao menos disseste:
                     “Não sonhes, menino dos versos
                     serei apenas uma pausa
                     no teu tédio”
                     Passaste, como uma neblina
                     deixando a solidão
                     e esta impiedosa calmaria.