terça-feira, 26 de março de 2013


       Sem nome I
Esta maldição
de ter que falar da dor,
do que todos vêem mas não falam,

do que todos falam mas não vêem
– nascemos com ela.
 
(Calíope, do alto do seu trono,
aponta o menino).
 
E lá se vai ser palhaço
do Grande Circo
– como se o mundo precisasse tanto de bobos
quanto de cortes.

terça-feira, 19 de março de 2013


                       Sem nome II

              Estes brinquedos de letras
              condenados sempre à solidão das gavetas,
              à morte lenta das traças,
              à indiferença rude de tantos esquecidos
              e a rolarem ao vento que varre estas sarjetas
              - são como aqueles encantos de crianças
              com os quais brincávamos, inocentes,
              e depois, saciados, envelhecidos, vazios,
              os jogávamos no quarto escuro da desimportância.

              Estes brinquedos, o que são?
              São estas coisas-poemas
              fabricados de ilusão.

quarta-feira, 13 de março de 2013


                                         Sobre os sonhos
Quase sempre,
caminhamos com as costas voltadas para nossos sonhos.
E assim, quanto mais avançamos, mais deles nos distanciamos.
Como não podemos olhá-los de frente, imaginamos apenas.
Mas, a vida dá voltas (muitas voltas)
– “O mundo é um moinho” –
e é por isso que mesmo estando de costas
para aquilo que sonhamos,
podemos casualmente, ao dobrar uma esquina,
ir ao seu encontro.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Outras navegações


Fernando Arthur Martins recita Lêdo Ivo

domingo, 20 de janeiro de 2013

Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)


                      Ruas de espuma

              Não, não tente me vender
              tuas palavras vazias.
              Não será meu o teu terno de alegoria
             - e isso bastaria
              para eu te dizer não.
              Mas eu tenho ainda a minha dor
              e a solidão;
              e o meu caminho de pedras é bem mais verdadeiro
              do que as tuas pontes vazias de ilusão;
              as minhas ruas concretas de espuma
              são bem mais belas do que o concreto das tuas...
              Eu sou um sonhador,
              eu sou um sonhador
              e terei a decepção...
              Mas não espere muito que eu me venda:
              eu posso morrer amanhã...
              Enquanto isso vou erguendo
              meus castelos de lã...
              Eu sou um sonhador,
              eu sou um sonhador (eu sei...).
             Mas não tente me vender
             tuas palavras vazias...
             Não será meu o teu terno de alegoria...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


              Quando

              Houve uma tragédia ontem.
           Chamem um poeta.
           Que ele coloque em palavras
           a dor do absurdo que presenciamos.
           Houve uma tragédia ontem.
           Que o poeta nos explique e nos console.
           Que ele nos faça prosseguir,
           na manhã seguinte.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

                       Bailarinos noturnos
Eles são bailarinos.
Executam seus silenciosos bailados
nas ruas vazias.
Não nas ruas vazias dos homens
(que são donos delas),
mas nas ruas que eles mesmo fazem
(tortas, sinuosas, sem atmosfera,
onde todos os corpos estão sempre
a cair infinitamente),
nas ruas que só eles veem,
nas ruas que mesmo vazias e tortas,
estão sempre cheias e certas e lindas
(lindas como só eles podem ver
dos homens as ruas vazias).
 
Não importa que bailar ninguém os veja,
que só a lua os observe:
eles bailam e flutuam na sua rua imaginária,
e são ebriamente felizes.
Não importa se amanhã a rua será
novamente dos homens:
eles dançam adormecidos e são felizes
nesse momento.
 
Que ninguém tente despertá-los.
(Por que, se nesse momento são felizes?).
Como a rua vazia, impassíveis, deixemos
                                                           [eles
- que é dos homens,
não dos bêbados, a realidade.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


                                                Santa Magistratura
Vil putana de magistral estatura
rosa dentada da mega estrutura
má és, e aturas, a opressão fálica
de mil corpos sobre a tua decúbita pose;
falácia urdida nas cátedras da mentira
na verborragia pustulenta dos sofistas
dos palanques, dos marqueteiros, dos pícaros:
aceitas passiva o manejo dos mais rijos membros
das pólis, sempre tão dotados no defloramento
milenário dos estuprados, das curras, dos ânus
                                                                     [glabros
de todas as infinitas épocas, povos e burgos;
ergues sempre teu manto diáfano e falso
e esguichas teu jacto quente de urina
na cara de todos os inocentes que pereceram
infinitamente em todos os milenares morticínios;
és como os sepulcros apostrofados pelo Cristo
branca na fachada do riso, boca, lábios e siso
mas pútrida no âmago profundo da rósea vagina;
não lances sobre a Arte a tua cegueira falsa
– bem enxergas o reluzir do ouro e das propinas –
obscena, segue teu jogo de disfarces vários
ad infinitum, ipsis litteris, fazendo valer apenas
o argumentum baculinum, enquanto deixas cair
só sobre o lombo dos desvalidos
a vara rija da tua balança prostituída.

domingo, 9 de dezembro de 2012

                                    Querobéns
                                                                     Para Márcia Andrade
       Diante do pálido frontão
       estes meninos brincam
       sua profana-singela-sórdida
       brincadeira:
       – Querubim, eu querobéns!
       – São meus, são meus, querubim!
       – São meus, são meus, querobéns!
 
       (E há ainda os escapulários
       a contabilidade, o lucro, a renda
       o marketing, o luxo, o concílio, o coro
       a obediência, o código, o ego, o armário
       a coroa, a mitra, a irmandade, a prenda
       o imposto, o dízimo o anel de... ouro
       o báculo, o refletor, a maquiagem, o halo).
 
       Enquanto isso
       no mais escuro dos cubículos,
       por trás do frontão, do átrio, do palco –
       Deus jaz esquecido:
       centro mudo do humano labirinto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Verso maior



           Tecendo a Manhã                            
                                     
                                    1

       Um galo sozinho não tece uma manhã:
       ele precisará sempre de outros galos.
       De um que apanhe esse grito que ele
       e o lance a outro; de um outro galo
       que apanhe o grito de um galo antes
       e o lance a outro; e de outros galos
       que com muitos outros galos se cruzem
       os fios de sol de seus gritos de galo,
       para que a manhã, desde uma teia tênue,
       se vá tecendo, entre todos os galos.


                                     2

      E se encorpando em tela, entre todos,
      se erguendo tenda, onde entrem todos,
      se entretendendo para todos, no toldo
      (a manhã) que plana livre de armação.
      A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
      que, tecido, se eleva por si: luz balão.


           João Cabral de Melo Neto*

*poeta pernambucano (1920-1999); poema do livro “A Educação pela Pedra”.

sábado, 24 de novembro de 2012

Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)

                                Ode ao trio elétrico
O povo está na rua, ó cidadãos pacatos
                  – fazendo ginástica –
                  os corpos banhados em suores
                  exalam odores axilares.
E pipocam tiros, quebram-se garrafas:
ao som da música simplista e barata
refulgem facas
narizes sangram
meganhas pisam
ancas indecentes
agridem a pudicícia hipócrita.
                 Ó arcanjos dos altares!
                 Ó padres, ó saudosistas, ó beatas!
                 Quanta descompostura é o povo na rua!
                 Quanta banalidade, quantos mausodores
                                                                    que audácias!
Não meu povo!
olha a decência!
– a cidade velha não está disposta
a tamanhas festas!
Muros velhos, descuidados, racham,
mocinhas donzelas octogenárias desmaiam histéricas,
frades turrões desconjuram:
                  “É Satanás, ó poetas mortos e fétidos!
                  Ó cultura incompetente, ó famílias nobres,
                                                                      ó falências!
                  Eyyyaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!
                  Co-Cô-Co-Cô-Co-Cô-Co-Cô-Cô-Co-Cô-Cô!!!
                                                                        Satanás!”
Não meu povo
– criado nas procissões ordeiras,
ovelhinhas conformadas no rebanho –
olha a decência!
Não meu povinho!
tolerante, submisso, exangue, curto.
Não meu povinho!
patriarcal, fradesco, curralista, latifundiário.
Não meu povinho!
elitista, pseudo-luso-burguês, usurário, reacionário.
Não, não, não, meu povo. Caluda, basta!
                 Marcha, marcha, meia-volta!
                 Olha a ordem, meia-volta, volta!
                 Volta, volta, volta, e vem, e vai!
                 E meia-volta, volta, volta, e volta, volta!!!
             Ó conformismo católico, ó eficiência
               repressora e sacra! Ó canalha profana,
                                                                       ó magote!
                 “O costume das procissões encarna,
                 às maravilhas, essa solenidade
                 majestosa e lenta,
                 dissolvente dos frenesis coletivos” –
                 já dizia Elias Canetti.
Mas calhou que o povo está na rua, ó políticos,
                 ó CALHORDAS POPULISTAS
                 ó sábios e doutos
                 ó alienados, ó propinas
                 ó verdade
                 ó decadência...

O povo está na rua.
                 E aí... viva:
os rituais afros
o frenesi coletivo, báquico, tribal
libertador, catártico, histérico.
                 Viva:
as seitas protestantes, as possessões demoníacas
os terreiros de macumba
prostitutas do Camartelo
doidos de minha infância
o primeiro travesti
os sapateiros comunistas
                Viva!
Porque calhou que o povo foi para a rua
ó cidadãos pasmados
ó pseudos-aristocratas
ó intelectuais basbaques
ó carolas, ó condolências: entendam!

Inevitável. Urge cantar, cantar qualquer canto.
                É o novo-divino-trio-elétrico
                   detodososritmosbaianos
                                                     Amém, e basta.

domingo, 11 de novembro de 2012

 
 

                            Porque


                   Se apertares o gatilho
                   tua mão absolverá os culpados.
                   Sim, eles ainda estarão lá,
                   no teu modesto féretro,
                   dizendo, entre dentes:
                   – Nos livramos de um
                   inoportuno ingênuo incômodo.
                   E a maioria, infensa à grandeza do teu ato,
                   depositará,
                   sobre a lápide do teu túmulo,
                   apenas a palavra COVARDE.
 
                   Persiste mais um pouco,
                   irmão inoportuno, persiste.
                   Incomodando, espicaçando
                   com o teu simples ato de viver ainda
                   todos que lucrariam com a tua morte.
                   Persiste mais um pouco:
                   forte, íntegro e inabalável
                   como um rochedo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


                                    Areias

Não,
a recompensa dos que lutam não será
ver tornarem-se em mel as areias do Grande Saara.
É chegado um tempo sem milagres.
Os magos e os mártires morreram todos.
Aos que caminham é dada a dor
de vencer as areias escaldantes.
Lutar é não morrer, caminhar.
Os suicidas que se sentem e esperem
e morram, silenciosamente em paz,
e não riam nem chorem diante da grande batalha alheia.
A caravana passa...
Caminhar, caminhar...
Cantar um pouco, que a planície é longa.
Maldizer o nosso Grande Deserto?
A beleza dos oásis e a insipidez das areias quentes
é um grande todo indiferente a tua ira
ou ao teu canto.
Caminhar, cantar...
Cantar, não nos confins plácidos duma ilha,
nas veredas verdes dos mosteiros,
prostrados parvos nas pedras frias das divinas aras
– cantar juntos pela estrada árida.
Os exilados voluntários que fechem os olhos
e os ouvidos e se calem –
e se tornem múmias lendárias.
A caravana passa...
Pequenos pingos de mel deixados cair na água-luta
não a tornará mais doce
– pensemos na grandeza do gesto;
pequenos pingos de luta-água na aridez
do deserto-incêndio não extinguirão as chamas
– pensemos na grandeza dos colibris.
Caminhemos, cantemos, tagarelemos, lutemos.
A luta passará um dia.
A caravana passa.
Tudo passa.