quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)


                                                             Amém
                 (Prece do poeta alagoano)

 Ó Calíope, pobre Deusa!
 Livrai-nos desta grande mediocridade,
 deste desejo de esquecer Whitman, Graciliano
  e seguir PC...
 

sábado, 10 de agosto de 2013


                      Poema mensal

                         Se não abril
                            eu maio
 

sábado, 20 de julho de 2013



            Anacolutos

                     há muito tenho carregado
                     esta cruz.
                     Tanto que, hoje, parece-me
                     que ela é que me ampara
                     e me carrega.
                     É o meu peso que
                     lhe pesa.

                     ...................................................................

                     eu vi
                     um urso atirar-se suicida
                     diante de um caminhão
                     numa auto-estrada de Massachusetts.

                     ...................................................................

                     os babalorixás
                     leram Freud
                     e ficaram canhestros.

                     ..................................................................

                     (fazer um poema
                     disto
                     as frases estão muito...)

segunda-feira, 24 de junho de 2013


      Óbvio-labirinto

                    I
                    Tenho algumas coisas a dizer
                    principalmente àqueles
                    que não precisam
                    nem querem me ouvir.

                    II
                    Não almejo o silêncio.

                    III
                    Minhas palavras vazias
                    ao tocarem o fundo do poço
                    estouram, como bolhas de sabão.

                    IV
                   O (único) artista mudo
                   é um vendedor de apólices.

quarta-feira, 5 de junho de 2013


                            Este mundo projetado

É um castelo encantado
onde mora uma linda princesa
disse ao pai o menino.
 
Não, é um Banco. Venha, vou mostrá-lo
por dentro.
 
E o encantamento, diante de tamanha autoridade,
não resistiu.
 
(Assim, o que era um castelo de magia, desde então,
tornou-se, para sempre, o cofre do dinheiro...).
 
Será que é assim,
será que tem sido assim,
por um efeito qualquer
de uma persistente alucinação coletiva
a força de convencermos teimosamente uns aos outros
que transformamos/velamos o Paraíso onde nascemos
neste feio-real-concreto-velho-mundo
onde agora habitamos?

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Verso maior


                                      Minha Terra

                    Minha pátria é onde os goiamuns
                    pressentindo o cair da noite
                    buscam as locas entre os mangues.

                    No meu país palustre
                    o peso das chuvas encurva os cajueiros
                    e o sol calcina lágrimas

                    E uma espinha de carapeba
                    arranha a louça do dia
                    que a língua do mar lambe.

                    Entre casas de maribondos
                    e caranguejeiras imóveis
                    a tarde me iluminava.

                    Eu soletrava a ferrugem
                    de navios sem nome que a lama
                    das lagoas mastigava.

                    Eu percorria as galáxias.
                    Fagulhas de estrelas caíam
                    nos coqueirais de tifo.

                    No chão das ilhas pegajosas
                    um planetário búzio avariado
                    guardava o aroma do mundo.

                    Minha pátria é a água negra
                       – a doce água cheia de miasmas
                    dos estaleiros apodrecidos.

                   (Na cozinha, a boca alugada,
                   soprando carvões, fazia nascer
                   o fogo do dia).

                   Quando eu estava dormindo
                   e chovia no meu sonho, nos vales
                   caíam trombas-d’água.

                   A manhã raiante se manchava
                   do sangue escuro da raposa
                   morta no chão memorável.

                   Minha terra é o novo caminho
                   que o homem abriu sem querer
                   no capim à beira do arrozal.

                   Entre lagartos e caga-sebos
                   vi as horas caírem sobre as cercas
                   que afrontavam os relâmpagos.

                   Foi na infância que aprendi a ver-te,
                   ó sol que me ilumina. E um arco-íris
                   abriu-se entre arraias no céu pálido.

                   Foi na infância que aprendi a amar-te,
                   fêmea, que o meu espanto confundia
                   com as caranguejeiras.

                   No meu país de podres arquipélagos
                   um cardápio de barro sempre espera
                   meus irmãos opilados.

                   E, nos monturos, homens e urubus
                   na lei da livre concorrência, ganham
                   o pão que Deus amassa.

                   De cima das dunas eu via o mundo:
                   escória azul ao longe,
                   mar curvo de navios.

                   Como o universo era belíssimo!
                   A nuvem que roçava os trapiches
                   fulgia no celeiro das águas.

                   No fim dos trilhos da Great Western
                   entre balduínas sedentas
                   e dormentes cravados na água.

                   O branco farol de minha terra
                   clareava jaqueiras acocoradas
                   sempre grávidas como as lavadeiras.

                   Vindo das ilhas inacabadas
                   nunca aprendi a separar
                   o que é da terra e o que é da água.

                   Sempre juntei no mesmo prato
                   as espinhas dos meus peixes
                   e os sobejos dos meus sonhos.

                    Lêdo Ivo*

*poeta alagoano (1924-2012); poema incluído na Revista da Academia Alagoana de Letras Nº 16, período 1990/1998.


domingo, 28 de abril de 2013

Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)


                 Curriculum vitae

Acho-me poeta.
Muitas vezes vagando por dentro de mim
me acho, escrevendo versos.
Escrevendo versos acho e acha-se a poesia
(mesmo quando não quero),
vagando por dentro de mim.
Estou sempre poeta então,
mesmo que nem mesmo eu veja
acho-me sempre – por dentro de mim – poeta.

quarta-feira, 3 de abril de 2013













 
 Veraneio

Quando a vida me der uma folga
que seja como um feriado, desses inadiáveis;
que seja como um fim de semana prolongado,
sem segunda-feira pra voltar pro batente,
voltar às lutas vãs,
às dúvidas e certezas (certas ou não);
que seja só o silêncio,
o enorme silêncio do vazio
e a inconsciência de que tudo é silêncio;
que seja só escuridão,
a morna escuridão para que eu durma
                                              [profundamente      
e a inconsciência de que tudo é escuridão.
Que ninguém me venha incomodar,
que ninguém me venha com respostas, correções,
nem sons e luzes e ações;
que ninguém me venha com Deuses-Patrões,
cobrando o que fiz ou deixei de fazer,
nem com desnecessárias recompensas celestiais.
Que ninguém me venha com estórias dos homens
que famigerados ainda não tiraram férias.
Não me importarão seus negócios monetários,
não me importarão mais suas lutas,
não me importarão mais suas descobertas futuras...
Que ninguém me venha incomodar com essas coisas,
pois não vou querer mais nada disso:
estarei de folga permanente, eterna;
vou querer apenas a inconsciência
e a inconsciência de estar inconsciente.

terça-feira, 26 de março de 2013


       Sem nome I
Esta maldição
de ter que falar da dor,
do que todos vêem mas não falam,

do que todos falam mas não vêem
– nascemos com ela.
 
(Calíope, do alto do seu trono,
aponta o menino).
 
E lá se vai ser palhaço
do Grande Circo
– como se o mundo precisasse tanto de bobos
quanto de cortes.

terça-feira, 19 de março de 2013


                       Sem nome II

              Estes brinquedos de letras
              condenados sempre à solidão das gavetas,
              à morte lenta das traças,
              à indiferença rude de tantos esquecidos
              e a rolarem ao vento que varre estas sarjetas
              - são como aqueles encantos de crianças
              com os quais brincávamos, inocentes,
              e depois, saciados, envelhecidos, vazios,
              os jogávamos no quarto escuro da desimportância.

              Estes brinquedos, o que são?
              São estas coisas-poemas
              fabricados de ilusão.

quarta-feira, 13 de março de 2013


                                         Sobre os sonhos
Quase sempre,
caminhamos com as costas voltadas para nossos sonhos.
E assim, quanto mais avançamos, mais deles nos distanciamos.
Como não podemos olhá-los de frente, imaginamos apenas.
Mas, a vida dá voltas (muitas voltas)
– “O mundo é um moinho” –
e é por isso que mesmo estando de costas
para aquilo que sonhamos,
podemos casualmente, ao dobrar uma esquina,
ir ao seu encontro.