Poema "Elegia 1938", de Carlos Drummond de Andrade. Recitação: Caetano Veloso.
Aqui, versos prontos para viagens várias, para navegantes ou para transeuntes que, do cais, podem vislumbrar a paisagem... Por que a poesia é o outro lado da aridez, tentativa da construção do sonho, mesmo a partir da adversidade; sonho colhido nas palavras dos mestres, empreendimento sempre a ser compartilhado com o outro. Podem içar as velas...
sexta-feira, 13 de julho de 2018
quinta-feira, 31 de maio de 2018
Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)
Da solidão dos seres
A
dor do ser só
é
como a dor que flui naquele rio
–
eternamente a correr para o mar:
imutável,
monótono, ao pé daquela montanha.
A
dor do ser só
é
como a dor que naquela montanha dói
–
indestrutivelmente estática sob o Sol.
A
dor do ser só
é
como a dor que o Sol sente
–
ano após ano queimando dentro dele
para
iluminar meros planetas.
A
dor humana do existir é passageira sim:
eterna
é a dor das coisas eternas
–
imutável, estática, indestrutível.
Mas
os seres eternos, como o Sol
não
sentem dores, decerto:
só
quem os observa sente neles dores suas.
Dores
de recordações, dores da sua solidão
–
que não os seres e sim eles sentem.
A
dor passageira do ser só
dói
mais do que a dor eterna
de
nada sentir.
sábado, 28 de abril de 2018
Dor, Senhor
Não,
não creio.
Tenho
tido algumas certezas,
quase
nenhuma esperança
– tem
sido pouca a minha dor.
Por
isso, não creio.
(Como
dizia, certo, Pessoa:
nos
manicômios, nas masmorras,
nos
templos, nas seitas
–
existem tantos sofredores
cheios
de todas as certezas,
de
tanta esperança...).
Não.
Tenho
varado noites insone,
erguido
sonhos,
(ai de
mim, buscado a Verdade)
construído
castelos de areia à beira-mar.
Eu,
tenho sido feliz.
Tem
sido pouca a minha dor.
Por
isso, empedernidamente, ainda não creio.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Dorme certeza
Há
noites em que só a morte seria a solução.
Há
noites em que sonhar não consola,
escrever
um poema, gritar ou silenciar,
orar
a Deus, ouvir uma música, chorar,
copular,
anestesiar-se...
Há
noites em que nada nos consola
da
certeza de sermos apenas o que somos,
e
a constatação dessa grandessíssima mediocridade
nos
desperta, emergindo das profundezas medulares.
Mesmo
em noites assim, entretanto,
é
preciso adormecer
–
para que na manhã seguinte
os
vizinhos não descubram,
em
nossas olheiras muito profundas,
nossas noites mal dormidas.
nossas noites mal dormidas.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Homenagem ao Prof. Wilton Lucena
Necrológio
(Elogio fúnebre)
À memória do prof. Wilton Lisboa Lucena
Creio
que foi o teu coração
que
em meio a noite desandou
a
ressoar em descompasso
–
turvando o teu límpido sorriso,
abalando
a firmeza dos teus passos.
Repentino,
como uma onda que se erguesse
no
instante exato em que o cais e a paisagem
esperavam
apenas aquela placidez
que
no peito trazias costumeiramente.
Então,
algo se partiu.
Partiste.
Mas
não antes de lutar
(que
a tua calma escondia mesmo
a
força de um mar):
"Aquieta-te
coração!
Nada
de estardalhaços.
Silêncio
artérias do que sou,
da
minha cidade e do meu destino
–
eis-me completo".
E
quando o silêncio se fez,
em
meio a pressa de uma segunda-feira,
teu
coração serenou finalmente.
Foste
embora.
Porque
tudo estava consumado
e
nada mais – Deus sabe – era necessário.
Penedo, 23 de maio de 2017.
Francisco
Araújo Filho
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)
Insônia
No
meio desta longa noite
é
preciso deixar
todos
os sonhos
todos
os ideais acalentados
todos
os projetos elevados
esvair-se
pelos poros
– para
que pela manhã
não acordemos loucos.
não acordemos loucos.
quinta-feira, 30 de março de 2017
O espectro
Numa
destas grandes calçadas comerciais
existentes
no seio marítimo das cidades,
vislumbro
às vezes o espectro negro
de
todos esses assassinos
que
mataram prostitutas, devoraram cadáveres,
atiraram
em ídolos, estriparam velhinhas indefesas...
E o
espectro me olha por trás da vitrine,
a sua
sombra monstruosa perseguindo a minha, convidativa.
Mas uma
mãe cruza a esquina conduzindo uma criancinha
e então
eu paro e prossigo:
normal,
cotidiano, covarde e mesquinho,
dissolvido
como uma ameba na multidão.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Verso maior
Poética
1. Que é a Poesia?
uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.
2.
Que é o Poeta?
um
homem
que
trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como
qualquer outro
homem.
*Poeta paulista (1894-1974).
domingo, 27 de novembro de 2016
Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)
Faces
Se ando
elas me
perseguem,
me
observam das esquinas, dos becos e das ruas;
contorcendo-se
moles em espantos
me
analisam, me cheiram,
me
tocam e me tateiam,
revolvem
calmas meus defeitos.
Se paro
no bar
da esquina do beco de uma rua,
para
tentar esquecê-las,
elas me
encaram
me
indagam e me cobram;
algumas,
flácidas, choram,
outras,
rígidas, me estranham;
advinham
e descobrem em mim
alegrias
e desesperos tamanhos
que
talvez tantos nem tenho.
Estou
farto de fisionomias
– de
faces, de rostos e de caras vazias,
de
faces perfeitas, felizes,
de
rostos limpinhos, dominicais,
de
caras falsas, amáveis.
Antes
houvesse somente a rigidez óssea,
ocular
de órbitas vazias;
a
alvura terrível que se esconde sob elas.
Antes
fossem todas as cabeças nuas, caveirentas
– que
mostrassem em detalhes as mazelas
e todas
as aterrorizantes verdades
cruas.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Uma história triste
O
suicida
foi
para o silêncio do seu quarto
despedir-se
da vida.
Apontou
serenamente a morte para o ouvido
e
detonou, num jacto de sangue, consumou
seu
desespero, sua fuga rumo ao desejado nada.
(No
funeral falaram de sua covardia;
os
que muito o amaram lamentaram a Deus
por
ter condenado seus filhos à morte).
O
suicida
despertou,
entretanto, no outro mundo;
e
ao constatar sua transcendência
–
um outro mesmo mundo
que
aguardava ávido sua angústia –
o
suicida, amaldiçoou a Deus
por
ter condenado seus filhos à vida.quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Ego
Agora, leão encerrado em sua jaula de concreto,
sua
covardia, dolorosamente, ele remói.
Ele,
que da dor tem esquivado-se
(um
pequeno corte o exaspera no dedo),
burlar
a morte, enganar a vida, tentado.
Egoico,
narcísico, ególatra, outros nomes
para
o seu medo.
O
medo que lhe nega a janela alta e aberta
(o
seu belo corpo, depois de flutuante, partido,
na
calçada, em mil farpas).
Frio
como uma lâmina, uma lápide,
sonha
então a sua fuga:
pisar
o próximo como formigas,
matar,
se preciso urge,
os
seus objetivos escusos.
Ah,
o impede sua passividade,
o
delimita a ganância maior
do
sistema, das outras engrenagens.
Assim,
na solidão de sua jaula
ele
remói, agora
sua
covardia
ou sua impotência.
ou sua impotência.
segunda-feira, 13 de junho de 2016
A terrível noite
E se na madrugada
infiltra-se sob a pele
essa vontade de maldade
– por demais terrestre
projeto terrificar o mundo.
Matar as libélulas,
estraçalhar as flores,
oprimir com pé tirano
tudo o que me seja inferior
e frágil.
Contudo, estas mãos que me foram dadas,
contudo, este coração no peito posto,
este amor demasiado
e esta consciência a me recriminar,
dizendo:
– Estás perdendo a humanidade.
Chafurdas já na tua lama,
porco medíocre, medíocre, medíocre...
(Vai a noite
e a manhã é chegada.
Já não sou um nem outro,
sou um terceiro
– que recorda).
Estar assim, sempre dividido
entre a alma voltada para as alturas
infinitas
e o sangrar dos pés na estrada áspera;
nunca ser um todo, mas mutante
– eis a trágica condição do ser
existindo.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
Inteiro
Ser
inteiro.
Manter-se
íntegro.
Não
perder uma partícula do que és
–
este tem sido, bem sei, ó poeta, o teu idílio.
Mas,
por que esta persistência,
esta
utopia arduamente, dolorosamente
urdida,
ó louco das madrugadas?
Não
sabes que a morte, terrífica,
se
abaterá inevitável sobre ti;
e
que do teu corpo diluído e decomposto
nutrir-se-ão
as larvas?
Ah,
sei o teu segredo:
não
o teu corpo, mas o teu espírito
é
o que loucamente buscas preservar...
Saibas,
entanto, ó insano,
que
também o teu espírito
será
um dia partido em mil farpas.
E
serás tu que terás que fazê-lo
se
realmente pretendes tê-lo para sempre inteiro.
Para
que permaneças íntegro,
terás
que suprimi-lo
–
suprimi-lo, sim, completamente.
Tudo
tarda e ainda desconheces muitos mistérios...
Prepara,
pois, as tuas mãos calosas
para
este terrível e supremo instante.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Uma homenagem especial - Chico Acioly
Enquanto a banda
toca
À memória do mestre Chico Acioly*
Levantei, em pleno domingo, com a sensação de que as paredes tornavam-se transparentes, enquanto o telhado flutuava sobre minha cabeça como uma
pesada lâmina de vidro. No entanto, conhecia já aquela sensação: um estado
mental que emergia em mim sempre que, por algum motivo, a transitoriedade das
coisas, da vida, do mundo, tornava-se particularmente intensa. Um mundo que se
desfaz, derrete, desaparece, dilui-se em insignificância, carente de
durabilidade e sentido. Esse sentimento eu sabia, portanto, de onde se
originava, mas nunca como ou quando iria desaparecer, adormecendo em mim da
mesma forma abrupta como começara.
Decidi, então, sair para a rua, e caminhei enquanto as calçadas, os
postes, os paralelepípedos, as casas e tudo o mais que compunha a cidade dissolvia-se
igualmente um pouco de açúcar mergulhado em um líquido qualquer. Prossegui
assim até o momento em que percebi uma música suave que chegava até meus
ouvidos provinda de algum ponto, não muito distante, daquela cidade de
gelatina.
Aquela música me guiou, e não muito tempo depois cheguei a uma praça onde
uma banda de música tocava. Quer dizer,
afirmar que a banda tocava não corresponde exatamente à verdade, pois o que se
via ali, sentados em cadeiras brancas, dispostas em círculo, eram músicos
(cerca de trinta, não mais), todos vestidos de branco, que executavam
instrumentos invisíveis – gestos precisos e harmônicos, olhares compenetrados –
sem partituras ou maestro. E, entretanto, a música fluía, enchendo a praça e a
cidade com os sons daquela estranha retreta.
Havia, é claro, algo de mágico naquilo tudo. E não apenas por conta dos
instrumentos invisíveis, mas pelo fato, também logo percebido por mim, de que a partir
daquela praça a cidade solidificava-se, com as paredes, as árvores, as pedras,
tudo, recobrando a solidez e o brilho. Era como se a música invisível restituísse
as coisas ao seu estado anterior.
Foi quando observei, repentinamente, do outro lado da praça, um homem todo
vestido de preto que, por algum motivo, mesmo estando parado diante da banda,
parecia exalar pressa e impaciência. Eu diria que ele sequer ouvia a música.
Pelo contrário, provavelmente era da música que ele tirava seu semblante
inquieto, contrariado. Dei alguns passos
em sua direção, e resolvi, finalmente, perguntar:
– O que houve aqui? O que tudo isso significa?
– O que significa eu não sei, o problema é que eu estou atrasado! Me
disseram que ele estaria aqui, mas acho que vim ao lugar errado. E eu não posso
perder tempo, mesmo porque eu preciso fazer o jogo... Mas, veja aí (e apontava
para o relógio no pulso, num gesto de impaciência, uma espécie de tique
nervoso), já uma hora dessa e nada dele chegar!
– Ele, quem?
– O Chico Acioly!
Eu ia fazer outra pergunta, mas o homem, finalmente, num gesto brusco,
decidira partir, com aquele andar apressado dos indiferentes. E quando ele virou de costas, para dobrar uma esquina, foi então que divisei algo ainda mais
estranho: o homem de preto tinha um enorme buraco no peito, através do qual era
possível ver o que estava do outro lado. Sentei. Faltava alguma coisa.
A música parou repentinamente, e quando levantei a cabeça, estava diante
de mim o mais jovem dos componentes da banda. Era quase um menino, segurando o
seu instrumento invisível com um gesto característico. Como eu o olhava sem
entender, ele perguntou, e assim conversamos:
– Você também não sabia?
– Sabia, o que?
– O seu Acioly se foi...
– Morreu? Mas como? Ninguém me avisou... Se alguém tivesse me dito eu
teria vindo, eu teria feito uma homenagem, um texto, enfim... Mas eu estava em
outro lugar, eu...
– Ah, é sempre assim, sempre estamos em outro lugar.
– É, sempre é tarde demais...
– Não, aqui nunca é tarde...
– Aqui? Por que “aqui’? Que lugar é esse?
– Vejo que você é outro que não sabe, como o homem de preto...
– Talvez...
– Então, compreendeu agora?
– É a Cidade dos Sonhos? Engraçado, não lembro de ter adormecido...
– Não, é a Cidade da Memória.
– Ah, a memória é curta... Então logo tudo isso aqui também estará
desmanchando-se, como ainda há pouco. Você também não teve essa sensação?
– Sim, talvez... Tudo o que é humano é transitório... Mas, você ouviu a
música?
– Sim, ouvi...
– E não percebeu nada?
– Percebi... Mas vocês não ficarão aqui tocando para sempre... Ficarão?
– Não somos nós que tocamos, é ele.
– Ele?
– Acioly. Ele e tantos outros iguais a ele. Foram eles que construíram essa
Cidade.
– Mas ele se foi, do que adianta agora essas palavras ou essa música? A
hora das homenagens passou. Não seria melhor ficarmos em silêncio?
– Acho que você não entendeu. Não somos nós que tocamos... Você não vê?
Veja, ele está aqui! Todos estão aqui! Tudo bem, ver não é fácil... De qualquer
forma, independente de qual for a sua escolha, saiba que na Cidade da Memória
não se chega apenas pelo Caminho da Lembrança, mas sobretudo pelo Portal do
Coração.
O menino sorriu, comprimiu com a mão direita o meu ombro em sinal de reconforto
e foi se juntar aos outros. Eu finalmente havia entendido, por isso me ergui
para ir embora, e quando já quase deixava a praça para trás, ouvi novamente o
menino:
– Ei, para onde você vai?
– Escrever. Acho que ainda há tempo.
– Sim, sim. Aqui sempre há tempo.
Caminhei, e enquanto virava à esquerda na esquina de um sólido casarão,
ouvi que a banda recomeçara a tocar. Um dobrado, uma antiga composição que
altiva e festiva ressoava por entre os becos, ruas, ladeiras e praças da minha
Cidade do Invisível.
Francisco Araújo Filho
*
Francisco Acioly de Figueiredo, o mestre Chico Acioly, faleceu no último
dia 24 de fevereiro deste ano de 2016. Foi um
penedense excepcional com uma história de luta no carnaval, na
música, na imprensa, na politica e na cultura local. Fará falta.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Poemas do livro "Folhedo" (Continuação)
Via crucis
Sobre
o negro asfalto um cão morto:
os
olhos baços a fitarem desconsolados o infinito,
estendido
e desamparado no seu desconcerto de morto;
a
vermelhidão de suas entranhas expostas a ecoar
estrada
a fora, como um grito, impregnando de morte
o
caminho dos passantes.
Mesmo
os mais indiferentes, pestanejam ao passarem
adiante,
tocados por sua terrível verdade.
(Quando
ainda pulsava-lhe a tênue centelha
ele
vagou vadio pelas calçadas,
enxotado
e pisoteado pela humana brutalidade,
a
pastar os restos dos açougues e mercados,
no
seu andar medroso e indefeso
dos
que já apanharam muito.
E
ainda assim persistindo, persistindo, apegado
vilmente
ao mundo).
Que
potência desencadeou essa insignificância?
Que
desígnio terrível a manteve viva
até
o momento em que o carro do rico executivo
a
libertou da vida?
Há
de ter um sentido para essa vinda inútil.
Há
de existir uma finalidade para esse absurdo.
Ó
vós, vós que passais céleres
para
o desempenho de vossas importantíssimas tarefas
–
decifrai, decifrai
este enigma que sobre o asfalto jaz morto...
este enigma que sobre o asfalto jaz morto...
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