sábado, 27 de setembro de 2008

                 
              A velha encruzilhada

Foi uma vez,
(E não direi que sonhava:
No céu brilhavam estrelas
E o sol, sobre uma colina, pairava)
Havia dois caminhos:

“Vinde, sede medíocre!”
Falou-me aquele que trazia anéis nos dedos
E arrebanhava habilmente sua numerosa prole.
“Vinde, este é o caminho da maioria,
E aqui, ao menos, não vos faltará companhia.”
Não fui, e este seguia
Por um caminho sem espinhos...

“Vinde, sede nobre!”
Falou-me, por sua vez, aquele encanecido ancião,
De longas barbas, as vestes rotas...
“Vinde, este é o caminho da solidão
E a posteridade, quem sabe, nos espera.”
Não fui, e este seguia pelo caminho do incerto
Que conduzia às alturas ou a um abismo sem fundo.

Despertei, ou antes, adormeci...
E não fui por nenhum daqueles caminhos.
Sei apenas que a velha encruzilhada
Ainda está lá, e que me aguarda

Todos os dias.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008


                    Para os que lutam

       Vai companheiro, para a tua luta
       na tua selva de pedra.
       Tens a tua vontade e algumas velhas filosofias.
       Tens o teu suor, tuas mãos calejadas,
       os teus instantes de febre.
       “A vida é só isso”.
       Ora, quem não o sabe?

       Por isso ergui o meu canto
       meus castelos de areia
       meu jardim de rosas rubras
       meu pranto, meu acalanto.

        A vida não me suporta por tanto,
        e me destruirá, por inútil.

        Contudo, vejo o teu delírio,
        os teus solitários cansaços.
        És um homem apenas, perdido como tantos outros.
        Toma então este canto pobre. Que ele te sirva
        ao menos, nas tuas noites de agonia.

sábado, 13 de setembro de 2008

Outras navegações


Foto de Penedo durante cheia do rio São Francisco.
Na imagem, aspecto da Av. Beira Rio inundada pelas águas. (Década de 1930).

sábado, 6 de setembro de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                    Para quem
      
      Esta noite
      Este canto solidário
      Para os que vagam tristes
      Para os que decidiram por fim
      Lançarem-se da última janela
      Para a rota vertical rumo à dura calçada
      Para os tristes insones que pela primeira vez
      Vislumbraram o nada da vida
      Para os que jazem presos à vida
      Pelos lábios purpúreos de uma vagina
      Ou ao fundo opaco de um copo
      Para os que vagam ébrios
      Pelas cloacas das grandes urbes
      Para os que morreram muitas vezes
      E ai deles vezes infindas ressuscitaram
      Para os que perderam seus princípios
      Para os que se traíram
      Para os que perderam a mãe
      Para os que perderam o último pênalti
      Para os que perderam o último trem
      Para os que perderam todas as certezas
      Para os que perderam a poesia também
      Para os que perderam
      Para os que ganharam a morte
      Para os que ganharam... uma sogra
      Para todos estes, e os outros
      Este cântico
      Este pouco
      Esta certeza de sermos muitos
      E de que a noite dura
      Nos é pouca.