sábado, 15 de março de 2008

Do livro "Beco e labirinto" (continuação)


                       Terçã

        Nós, os meninos
        padecemos de grave doença:
        essa febre de consertar o mundo.
        Mas, que o nosso mal
        não provoque a insânia dos sanitaristas:
        a nossa febre tem cura,
        e a cura é a inevitável calma, da velhice.
        No mundo, abundam os casos dos recuperados,
        são estes saudáveis velhos decrépitos-reacionários,
        que num passado remotíssimo, tiveram todos os sintomas,
        do mal, todos os males.
        O tempo, porém, espera ainda.
        Aproveitemos então nosso delírio,
        com todos os devaneios,
        com todos os suores noturnos,
        com todas as insônias do mundo,
        com todas as quedas e escoriações possíveis.
        Breve estaremos também curados, calmos
        imbecis, tranqüilos, saudáveis, reacionários.
        A cura é inevitável e virá mesmo.
        Enquanto isso, aproveitemos:
        o mundo talvez não resultará melhor por conta disso,
        mas tamanho espalhafato servirá talvez
        ao menos, para a proliferação persistente do vírus
        (já que esta febre boba pode contagiar
        todos os impúberes, presentes e vindouros).
        E assim, no futuro
        quando a santa cura tiver por fim
        em nós se instalado,
        encontraremos um desses meninos contagiados,
        que do alto de sua febre apontará
        um dedo duro para a nossa cara reacionária,
        e dirá, bem revoltado:
        — Vós, que no passado quisestes consertar o mundo,
        não passais hoje de um velho imbecil,
        decrépito e reacionário.

sábado, 8 de março de 2008


                               Árvores

Num dia de verão, dentro dos meus olhos,
negras nuvens encobriram o sol que para todos brilha,
e eu caminhava pela estrada onde todos passam,
com o peso da fadiga sobre os ombros,
e o peso dos meus ombros sobre mim mesmo.
Tudo era escuridão na claridade.
Tudo era nada e nada a esvaziar-me.
A luta: o esforço último e desumano de não me vergar.
Ergui os olhos de terra e chão cansados,
olhei o horizonte por entre escuras nuvens, e vi
diante de mim uma enorme árvore, verde como esperança,
que sorrindo feliz pelas folhas e pelo tronco, disse-me
com a sua voz de farfalhar ao vento:
“Senta sob a minha sombra!
Toma minha calma pelas minhas folhas,
e minha força pelos meus galhos.
Toma a minha verdade como tua: o sol
brilha pelos bosques, veredas, abismos e caminhos,
e toda a luz que há em tudo, sai dos teus olhos”.
Olhei o horizonte por entre as nuvens claras, e vi
diante de mim, a luz dos meus olhos.
Tudo era tudo a preencher-me,
e eu caminhava feliz por um caminho de luz. Não mais
baixei os olhos, nem os tirei das belezas da estrada...
A gratidão: o esforço saudável e humano de não me esquecer.
Lancei um olhar ansioso em busca da árvore amiga,
e deparei-me, com a mesma árvore do outro dia,
tristonha e pálida. O peso enorme de si mesma sobre si,
as lágrimas como gotículas de orvalho de prata
a escorrer pelas folhas frias.
Sorri feliz pelos olhos e pelos poros, e com voz
trêmula e humana, disse-lhe:
“Banha-te sob a luz dos meus olhos!
Toma a minha energia pelas minhas mãos, e da terra
que te coloco sobre as tuas raízes nuas.
Toma minha força das palavras de minha boca.
Toma a minha verdade como tua: o sol
brilha pelos bosques, veredas, abismos e caminhos,
e toda a luz que há em tudo, sai das tuas folhas”.
Olhamos o horizonte por entre as nuvens claras.
Tudo se fez azul na imensidão.
Tudo era tudo a preencher-nos,
caminhávamos felizes por um caminho de luz
num dia de verão...

domingo, 2 de março de 2008


              Luz, estigma

Porque aqui
a luz é sempre muito parca.
Aqui a luz pende em réstias
de furos numa escura cobertura,
sobre uma superfície em penumbra.

Porque aqui
em volta de uma luz assim mortiça,
aglomeram-se por vezes uns famintos poucos
que em desespero tentam vislumbrar,
pelos tênues orifícios,
um breve momento de infinito.

E cai a luz,
aqui sobre um crânio calvo,
ali, sobre uma magra espádua,
além, os rins de um velho cinge.

(Na verdade, a pouca luz que me coube
mal dá para urdir estes versos toscos).

E giram, giram
e assim girando em torno
dos minúsculos pontos luminosos,
são eles tocados de luz ao acaso,
enquanto nas alturas desanda
o infinito orbe.

(Sim, os deuses todos foram perversos conosco...
Por que abrindo em precipício
esta escuridão que nos encobre,
não deixaram eles que nos inundasse
a mais completa luz?).

Eis entanto que aqui, poucos são os chamados
e muito menos os escolhidos. E ainda assim,
aqueles que foram tocados pela claridade,
não a recebem como uma dádiva
mas sim, como um estigma.

                     Do Caminhador

Na noite do Grande Deserto,
o Caminhador, vaga pelas areias ondulantes
com a sua solidão, com a sua dor, sua tormenta;
e quando uma fria aragem sopra do oriente,
o Caminhador, subindo a um monte,
ergue sua mão esquálida,
desamparando seus olhos cegos
que a areia bate, que a areia, areia;
e com a sua mão erguida assim para as alturas,
por entre o caos da ventania, o Caminhador,
espera uma folha desprendida de uma árvore
que só em sua quimera existe além...
Assim, o Caminhador, toma por vezes dessas folhas
que o acaso recolhe à sua mão cansada
de esperar tanto; e vergado pelo tempo, o Caminhador,
recolhe-se a um breve abrigo, para contar as folhas
desta sua pobre pescaria.
Passa assim seu tempo, o Caminhador...
a ver as suas folhas e separá-las,
por sua cor, sua textura, pelo sabor, pela amargura
organiza o seu caos noites inteiras
nesse labor inútil de desventuras, o Caminhador.
Pobre Caminhador,
este folhedo que possui como tesouro
é tudo o que lhe resta,
é seu cobertor, será seu túmulo,
sua glória que não terá.
Feliz Caminhador,
o deserto lentamente o absorve,
e um dia, finalmente
a grande ventania o levará
com suas folhas, como a areia...

                      Minha herdade

          Oh, alva planura, minha herdade...
          Parece-me terem dito:
          – É isto o que lhe cabe.

          Desde então tenho vagado por entre tuas farpas;
          tentado nas noites ermas
          encher de palavras teus quartos vazios;
          com minhas mãos desnudas
          buscado fazer germinar de tua aridez
          flores, ramas de hera, qualquer coisa viva.

          Herdade, herdade
          eu te maldigo, eu te reverencio;
          temo a solidão dos teus escombros,
          as mil portas de teu labirinto de espinhos;
          o frio noctívago de teus campos incultivados,
          teu cheiro de coisas mortas, bolor de velhos
          escaninhos.

          Herdade sombria,
          minha inutilidade;
          preso em ti
          vivo em ti, liberto;
          meu tudo
          meu nada,
          sucessão árida
          desta triste espera.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Poemas do livro "Ruas e rios" (1994)











Capa do livro "Ruas e rios"; desenho de autoria
do artista plástico penedense Joan Barros


 
          Música para viagem ou...

       Ruas e rios & Outros Poemas do Chico penedense, salta-nos aos olhos como: um grito MODERNO ecoando na rocheira ou música para viagem. Esse paroxismo habita por entre as pedras sedimentadas pelo tempo, e nauseosas pelo conformismo penedense. Explorando sistematicamente todas as variantes que lhes chegaram às mãos, torna-se Chico o mais significativo representante dos diluidores (classificação poundiana) em nossa terra.
........................
       O nosso Chico, assim, nos impõe com prazer uma vertigem, ao nos conduzir ao emaranhado de categorias e meneios de seus respectivos valores com que exterioriza todas as coisas do seu mundo.
........................
      Ezra Pound dizia que a beleza poderia ser definida como uma “adequação ao objetivo”. A poesia do nosso Chico não perde isso de vista, logo, não passeia pelo terreno do Kitsch.

                    Sérgio Paulo R. Nascimento*

*No Prefácio do livro “Ruas e rios”; Sérgio Paulo é jornalista, poeta e intelectual penedense.









 




Ruas e rios

Na rua noturna da minha cidade:
a lua sobre a rua azul de paralelepípedos incertos,
silêncio transpirando das lâmpadas sonolentas
de vapor de mercúrio;
as casas dormem numa ressonância surda

de cansaço humano,
e ao fundo, um rio velho embala as margens de seu passado
num passar interminável de recordações profundas.
Tristezas?
Não... Os velhos rios são eternamente felizes.
Só nas ruas noturnas (vistas de uma janela) há tristezas.
Só nas ruas que se prolongam como noites.
Só nas nossas ruas interiores:
das incertezas,
dos silêncios, das transpirações e sonolências,
dos vapores, dos mercúrios,
das ressonâncias dos rios velhos e dos cansaços humanos.

Mas, sempre amanhece (por uma fresta no telhado)
um outro mesmo Sol,
e então não há mais ruas noturnas:
depois do amanhecer
todas as ruas são como um rio velho...


Amor apenas

Ao céu, ao rio e às pedras
que construíram e constituem
as casas e as ruas da minha cidade

Para saciar essa vontade insana de sorver teus ventos,
escalei avidamente a torre deste templo.
E aqui, já do alto, adormecida e bela te contemplo nua,
com as lindas linhas do teu corpo nu imitando ruas.
Ah! me enfeitiçaste, formosa dama...
Vou me jogar torre abaixo:
só assim poderei descansar minhas carnes
nas entranhas tuas.
E quando isso acontecer, ó cidade minha!
— esquenta com tua terra quente essa minh'alma fria.















Despertação

A todos aqueles que se perderam pelas veredas

De repente, no meio da noite,
as paredes do seu quarto flutuam ilógicas sobre ele.
Ergue-se, e vaga solitário pelos seus escombros:
tudo é transparências e brumas,
tudo é incerto na sua terrível lucidez.
Procura algo sólido onde prender suas mãos invisíveis,
procura uma certeza que ao menos o engane,
procura sonhos, esperanças, quimeras...
Mas tudo é tão ilogicamente real nos devaneios
desta sua noite de insônia:
as ruas vazias-incertas erguem-se diante dele
terríveis como feras;
o rio, velho amigo, é de vinho, de planos
de fugas e de velas...
Não sabe se deve fugir, dormir e sonhar
ou se tudo é pesadelo e precisa acordar...
Não sabe se lhe dói mais
a lucidez ou a loucura.
Não sabe em qual delas está
sua cura...

domingo, 17 de fevereiro de 2008



Jovens ruas

Na noite molhada de chuva,
ruas caminham úmidas pela cidade sombria.
Perdem-se pelos becos incertos,
vagam periféricas pelos cruzamentos confusos,
procuram traçar numa esquina suas rotinas.
Para onde vão aquelas ruas incertas que não vejo
seus destinos?
Todas as ruas da cidade têm no fim uma certeza,
só aquelas jovens ruas não sabem caminhar
pela cidade velha sozinhas...
Quando se construíram, a cidade-mundo já era
uma anciã débil-confusa.
Ninguém traçou pra elas planos lógicos.
Ninguém lhes deu mapas de seus becos.
Agora, sempre que chove (e a chuva sempre vem),
as ruas jovens ficam alagadas, bêbadas,
inseguras, vazias
— esperando um Deus divino ou infernal,
que lhes dirá um dia:
“É por aqui, ruas minhas”...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Verso maior













            
Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das

                                                                                 [etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
                                                                                       [sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos.
Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

              Fernando Pessoa*
                          *poeta português (1888-1935); poema por Álvaro de Campos.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Do livro "Ruas e rios" (continuação)
















Escombros

Vago por entre meus escombros
com as incertezas das ruas por dentro de mim.
Tudo cai, tudo jaz, na minha cidade vazia:
casarões, glórias, memórias, templos, pretensões
— lembranças de um passado que não vivi.
Na mais terrível noite,
na mais clara manhã
— tudo cai, tudo desmorona vergonhosamente.
Será que só eu vejo?
Será que é só em mim que tudo cai?
Será que me invadem ou projetam-se de mim
tantas ruínas?
Nunca saberei, apenas olho passivamente...
Tudo é incerteza, dúvida, destruição.
Tudo cai, tudo jaz, na minha cidade-abandono.

sábado, 26 de janeiro de 2008












Vinho

Meu rio de vinho imaginário...
Cheio de planos, de fugas, de estranhas
Velas... Minha embriagues, minha loucura,
Meu doce sabor de amargura...
Qual mar distante te espera?
Quantas ilhas verdes permeiam
Tuas larguras?
Curvas, brumas, velas, aberturas?...
Se ao menos te navegar preciso fosse...
Prender em finos cálices cristalinos
O teu volume... Devaneio:
Escorres incerto entre meus dedos,
Abelha, odor de flor, deserto, areia...
Velhas incertezas, curvas futuras
— Sucessão líquida da minha eterna espera...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

 
Além da superfície
 
Sobre o rio velho,
dourado pela luz do sol poente,
frágil embarcação navega,
e dentro da sua rústica fragilidade
– um pescador tira sua sobrevivência
das entranhas do rio.

No mesmo rio (não nestas águas, mas em outras passadas),
ele tirava (menino que era) em outros tempos,
as delícias dos banhos de verão
– pescava sonhos...

Mas, passaram as águas do rio (como se fossem o tempo),
inevitavelmente em direção ao mar,
e levaram-lhes tiranas as delícias e a infância
– afogando os sonhos...

Hoje (velho como o rio), ele pesca sua realidade,
e há muito percebeu que quem do alto das pedras
a beleza do momento vê, nada disso sabe: o rio
é apenas um alegre e calmo velhinho dourado pelo sol
– e o pescador, quase um ponto invisível
na superfície do rio dos homens...

sábado, 12 de janeiro de 2008



Fuga

Quando adormece em mim a consciência,
ela foge do quarto escuro dos meus sonhos
e vem flutuar sobre meus desejos mais antigos.
Tento tocá-la, e ela se desfaz:
dobra uma esquina e entra numa rua real,
onde ela é apenas mais um sonho.
Na manhã seguinte,
acordo com a dor de mais uma vez,
embora em sonho, tê-la perdido...
Para esquecer, vou andar pelas ruas diurnas da cidade:
dobro uma esquina e, de repente, vou encontrá-la
na mesma rua da noite passada.
Tento me aproximar (com a certeza que não estou sonhando):
ela sorri para mim, real, concreta, amável
— e dentro de mim se desfazem todos os planos,
todas as frases ensaiadas.
Ela se vai, linda, suavemente real,
e eu fico observando-a como se fosse
uma sombra informe, inatingível...
Eu que a tive tão próximo
volto para casa e vou dormir com a dor e com a culpa
de tê-la deixado des-fazer-se mais uma vez...

domingo, 30 de dezembro de 2007












A estrela que passou

Ontem,
passou pela rua e por mim
— e o passado veio chegando lentamente
com a brisa que me trouxe seu perfume.
Passou tão próximo que quase pude tocá-la:
ergui a mão indeciso,
e percebi que estava muito distante
— sempre esteve, ó minha estrela, muito distante...
Só em sonho pude muitas vezes tocá-la.
Só minha imaginação pôde muitas vezes tê-la.
Mas os sonhos se foram,
e como um meteoro
a realidade caiu dolorosamente repentina sobre mim.
Agora,
é apenas um pedaço de meu passado
que passa por mim e vai embora
— deixando-me a rua vazia...

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Outras navegações








 
 
 
 
 
 
 
       Por que escrever? Cada um tem suas razões: para este, a arte é uma fuga; para aquele, uma maneira de conquista. Mas pode-se fugir para o claustro, para a loucura, para a morte; pode-se conquistar pelas armas. Por que justamente escrever, empreender por escrito suas evasões e suas conquistas? É que existe, por trás dos diversos desígnios dos autores, uma escolha mais profunda e mais imediata, que é comum a todos. (...)
Cada uma de nossas percepções é acompanhada da consciência de que a realidade humana é “desvendante”; isto quer dizer que através dela “há” o ser, ou ainda que o homem é o meio pelo qual as coisas se manifestam; é nossa presença no mundo que multiplica as relações, somos nós que colocamos essa árvore em relação com aquele pedaço de céu; graças a nós essa estrela, morta há milênios, essa lua nova e esse rio escuro se desvendam na unidade de uma paisagem (...); a cada um dos nossos atos, o mundo nos revela uma face nova. Mas se sabemos que somos os detectadores do ser, sabemos também que não somos os seus produtores (...). Assim, à nossa certeza interior de sermos “desvendantes”, se junta aquela de sermos inessenciais em relação à coisa desvendada.
Um dos principais motivos da criação artística é certamente a necessidade de nos sentirmos essenciais em relação ao mundo.

 

         Jean-Paul Sartre, in "O que é a literatura?"

sábado, 22 de dezembro de 2007

Do livro "Ruas e rios" (continuação)



Leitos dos homens, mãos dos rios

Meu rio chora,
e todo ele é uma enorme lágrima
— de tristeza e de pesar
por seus irmãos assassinados.
Irmão Tietê, irmãos amazônicos e tantos outros
sepultados inteiros na ganância humana
— cadáveres putrefatos de extensa agonia.

Meu rio chora,
pelas pedras e pelas ilhas
— um choro de prata e de ouro.

Meu rio tem medo,
da incerteza que há após aquela curva
— medo infindo do seu desamparo de velho,
medo de ter o fim de tantos outros.

Meu rio treme,
numa extensa paranóia poluifóbica
— medo líquido de amanhecer não mais eterno.

O meu rio, ah! o meu rio...
Nada sabe da vida nem de mortes,
nem de egoísmos, de ganâncias, nem dos abismos humanos:
só quem o olha vê nele reflexos seus
— reflexos das lágrimas, das tristezas, dos pesares,
dos instintos assassinos, da ganância e da podridão
que não o rio, e sim eles sentem.

O meu rio é feliz:
apenas passa
— sem saber que sua vida eterna e extensa
repousa no leito da limitada mão mortal humana.

sábado, 1 de dezembro de 2007

















Amparos

Meus sonhos voam por estes ares,
por entre estas torres, sobre os montes,
sobre distantes mares
e na superfície deste rio sem fim.
Meus sonhos planam como fantasmas,
como emaranhados de fumaça e brumas.
Meus sonhos vagam à noite por estas ruas
e dormem nus por estas pedras frias.
Meus sonhos cansam, invadem ingênuos estes templos
e rolam ébrios por este chão como entulhos.
Meus sonhos sentam-se nos bares, bebem amarguras
e tragam incógnitos por estas praças vis loucuras.
Meus sonhos já morreram vezes infindas
e por vezes tantas, insistentes, ressuscitaram.
Meus sonhos, têm irmãos inúmeros
que com eles vagam por esta noite incerta...
A meus sonhos só resta esta tênue certeza:
a quase ânsia de saber
que outros sonhos idênticos sonham seres iguais.

sábado, 24 de novembro de 2007



Ponto da Alma

Existe em mim uma praça
onde sento minha alma para descansar
de todas as lutas que nunca travei
e crianças vêm brincar incansáveis
como pássaros ao amanhecer.
Onde me banho de luz
e pondero o peso
da minha pedra-cruz.
Onde parei no tempo vezes tantas
que já nem sei se sou
hoje ou amanhã.
Onde vago pelo passado
(mesmo o que não mais existe decerto)
e ouso traçar pálidos planos,
linhas, curvas e retas
para o meu incerto caminhar.
Existe em mim uma praça
que me espera todas as noites
e onde o tempo passa para me envelhecer.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

 Longe do mar

Nas esquinas das ruas interiores,
existe sempre um anjo
e uma fera também;
velhos de plácidas barbas brancas
e jovens revolucionários.
Velhos como um rio já passado,
velhos cansados da luta com um mar só seu;
um mar sempre terrível e revolucionário,
como seus jovens filhos.
Filhos revolucionários de velhos pescadores
cansados da luta:
da luta com as feras das veredas ancestrais,
da luta com a placidez dos anjos templários.
Nas esquinas das ruas interiores,
há sempre um guerra e uma paz;
uma trégua precária consigo mesmo,
uma guerra terrível com os demais,
uma paz eterna e imutável
e um acenar inevitável de bandeiras rubras.
Nas esquinas das ruas interiores,
há o que existe em todas as ruas do mundo:
velhos, feras e revolucionários,
rios, templos e anjos plácidos,
lutas, tréguas e bandeiras vermelhas.
Nas esquinas das ruas interiores,
há sempre um poeta que fala de ruas
e alguém que vai à luta contra
o mundo, também.

sábado, 10 de novembro de 2007
















Grãos

Um grão de areia perdido na praia observa as ondas
que vêm-e-vêm encharcá-lo de monotonia.
Se ele fosse o mar seria feliz.
Se ele fosse o sol.
Se ele fosse um homem.
Se ele falasse, se ele gemesse, se ele gritasse.
Se ele morresse.
Se como uma Deusa, uma moça nua, de pés descalços,
andando na praia, sobre ele pisasse —
seria feliz...
Mas o sol se põe tristonho,
o mar monótono geme baixinho na penumbra
e um homem calçado caminha calado pela praia vazia.
Se ele fosse um grão de areia...
como seria feliz!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Do livro "Ruas e rios" (continuação)



Apolo Zero

um astronauta flutua pesadamente no espaço
move-se em câmera lenta
nadando no vácuo imenso
procura atingir uma nave
fixa e tão próxima que até parece
inatingivelmente distante
como a Terra lá embaixo
azul e girando lentamente
um homem desce uma rua
pesadamente vazia
flutua no vácuo imenso
procura atingir o nada
flutua e gira e anda
pela rua azul de luz
anda pela rua vazia
sua solidão é igual a do astronauta
flutua em câmera lenta
no espaço da rua vazia
que ouve o grito e o silêncio
que o homem traz por fora e por dentro de si
onde está a minha Terra azul de sonhos?
lá embaixo, girando lentamente?
onde está minha nave inatingível?
acordo sem respostas!
com as imagens esfriando nas retinas...
noites e noites tenho sonhado
com meus passeios noturnos por ruas vazias
e com um astronauta flutuando pesadamente no espaço
move-se, em câmera lenta
eu desço por uma rua vazia

domingo, 28 de outubro de 2007



O Tempo, a Mosca, e a Teia

Uma Teia de aranha balança lentamente
Grudada entre uma parede e o fio de uma lâmpada
Balança com o vento em movimentos quase rítmicos
Arfando na ânsia de sair da inutilidade
Arfando na ânsia de capturar uma Mosca inexistente
Voa em círculos nos pensamentos circulares de um cara
Parado entre uma parede e uma rua
Balança com o vento numa imobilidade quase rítmica
Arfando na ânsia de fugir da inutilidade
Arfando na ânsia humana de capturar um sonho
Enquanto (isso), no silêncio do espaço
Vestido de luz e trevas, perambula o Tempo
A comer as moscas e a matar os sonhos
A romper os fios da Teia e os cabelos do cara
Encostado na parede anos após anos envelhecida
Como as outras paredes que constituem a rua
Cheias de caras que sonham, de moscas e de teias...
No decorrer de um rápido ou longo instante
O Tempo transformará os sonhos, a inutilidade e tudo isso
Em nada...
Tudo e todos em nada...

Mas sem perceber o Tempo a passar rapidamente
Continuamos encostados numa parede, diante de uma rua vazia
Pensando numa maneira de fugir da insignificância
Arfando na ânsia de realizar nossos sonhos humanos
Enquanto observamos uma Teia inutilmente grudada
Entre uma parede e o fio de uma lâmpada
Balança com o vento em movimentos quase rítmicos...

sexta-feira, 19 de outubro de 2007



A Ilha Circunscrita (Marasmos)

Os dias são ondas crônicas no vaivém,
E a praia sempre está estupidamente vazia,
Cheia de tédio, solidão e só...
Nem um náufrago mal morto nela aporta,
Nem um farol vermelho brilha na noite morta...
Só ondas batendo pesadamente numa rocha surda,
E à noite, bilhões de lâmpadas com defeito
Piscando na cobertura da minha ilha...
Mas...
Pela manhã eu pesco nada e sonho,
Com a terra-continente que me sufoca
Com mil planos de fuga,
Que resultarão em tudo aquilo que nunca farei...
E então, continua todo do mesmo jeito:
As ondas crônicas,
A praia vazia,
O dia de pescaria...
E lá se vai minha vida,
De repente, numa noite feliz, quem sabe...
Se pelo menos ele fosse vermelho...
Minha ilha seria... inconcebivelmente diferente:
Não precisaria de náufragos,
Nem de faróis vermelhos,
Nem de sonhos, de fugas, nem de planos...

Mas ele não pára de cantar,
De ressuscitar esperanças mortas,
Não pára de não me matar,
De me encher de promessas não cumpridas
Como me fazem os que passam em seus navios
Ao anoitecer
Em pé sobre a praia,
Com a cabeça cheia de garrafas vazias,
Só me resta culpá-lo por todas as coisas
Que não aconteceram na minha ilha...
Maldito mar, simplesmente azul,
Simplesmente mar.

sábado, 13 de outubro de 2007











Re-Vis-Ando*

Leve ser alado
negro-anatômico-fisiológico
pousou numa linha
reta
morta
flutuante na atmosfera quente do sertão.

E eu espremo meus miolos
porque um urubu pousou num galho seco da caatinga
pra dar uma cagadinha!

(Pobre do Caeiro, que dizia:
“faço minha poesia como o levantar do vento”
— e se achava moderno).

Ser moderno é ser
Darkfazer construções aliterantes
anagramas shakespearianos, esdruxulismos verbais
construções plasmáticas, inversões filosóficas e...
merdas camufladas.

Será que ser moderno
é ser ultra-incompreensível?

Bibliografia.
Dicionário Ilustrado, Revisado, Aurélio Buarque
(onde averigüei o cunho vernáculo de um vocábulo).
Enciclopédia Sotádica Britânica.
Tabela de co-senos.
Bíblia Sagrada.
Amém.

*poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha (um outro “eu” do autor,
de óbvia inspiração pessoana).

sábado, 6 de outubro de 2007



Deus Século XXI*

Em verdade em verdade irmãos, vos digo: oremos
ao Deus da nova era
ao Deus lógico do Big Bang, ao Deus cético
ao Deus sem barbas nem túnica.
Oremos ao Deus indecente, eroticamente nu
ao Deus sem forma nem formalidade dos cultos
ao Deus sem trono nem tribunal
ao Deus-álibe, ao Deus cúmplice.
Oremos ao Deus informe e desumano
ao Deus comunista? capitalista? político-corrupto?
ao Deus do livre arbítrio social
ao Deus do “que se matem”
ao Deus do “que morram secos de seca”
ao Deus do “não farás a SENA”.
Oremos ao Deus que não criou as sociedades
nem os céticos, nem os místicos, nem os comunistas
nem os capitalistas-políticos-corruptos
nem os assassinos, nem o Nordeste, nem a seca
nem os nordestinos.
Oremos ao que nunca fraudou a Previdência
nem a Caixa Econômica.
Oremos ao que não existe.
Oremos ao que só não existe no homem
(já que orar a nós mesmos tem sido constante).
Oremos à chuva, à terra lindamente ressecada, aos cactos.
Oremos ao Sol que é a seca que é Deus.
Oremos às matas e aos rios eternos
aos montes, cavernas, às estrelas que brilham
aos vermes, bacilos, minhocas e esquilos.
Ou melhor: oremos ao mundo
(já que esse Deus-não-egoísta não aceita bajulações
nem sair na capa da Times
e prefere o anonimato de suas auto-realizações).
Oremos à dúvida.
Oremos à capacidade humana de duvidar e destruir até
(pasmem!) os Deuses. Oremos
Mas em verdade em verdade, vos digo:
Deus nenhum lhes escutou ou escutará.
Irmãos racionais, irracionais e inocentes
oremos ao e para o Mundo.


*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

Outras navegações















Aspecto da cidade de Penedo, vendo-se a Praça 12 de Abril (praça da Pousada) na década de 1930.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Do livro "Ruas e rios" (continuação)

















O Salto*

Um João anda pelas ruas cheias de Zés e de Marias.
Anda pelas ruas que lhe levam a lugar nenhum.
João pega um ônibus e corre atrás de seus sonhos
(Que não andam de ônibus, voam)...
João vai trabalhar na sua decepção dos outros.
João bebe amarguras.
João, sentado na praia, conta as ondas inúteis do seu Mar
(Que está de ressaca)...
Na segunda-feira, João sobe num viaduto e não flutua no ar
(Como se fosse pássaro).
Quem é João? (caindo).
Quem foi João? (bateu, espatifou-se).
Um herói? Um poeta? Um louco? Um covarde?
Quem seria João?
Ninguém sabe...
Nem mesmo ele sabia.
Passou na vida procurando respostas:
Nas ruas, nos ônibus, na decepção, nos copos, à beira-mar...
João agora é uma mancha vermelha no asfalto
E uma manchete nos jornais.
Pobre João...
Agora João é as estrelas,
É as pedras e o ar,
Poeira, terra e micróbio,
Rio, cachoeira, fogo e mar.
João é partículas esparsas.
João ficou eterno.
João virou Deus.


*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

sábado, 15 de setembro de 2007



Mamíferos*

Os teus dois seios parecem dois cervotinhos,
filhos gêmeos duma gazela.
......................................................................
A tua estatura é semelhante a uma palmeira,
e os teus seios a dois cachos de uvas.

              Cântico dos Cânticos

Amamos a rigidez muscular oculta sob sedas.
Amamos a fragilidade morena, rosada, clara, cor de leite, ébano.
Amamos a sua geometricamente cônica forma.
Amamos o desejo indisfarçado de vê-los no seu natural
abandono.
Sabemos os segredos de todas as Evas.
Sei-os, sabes, sabemos —
E os queremos, tentamos ao menos.
Desejamos descobri-los, tocá-los, comprimi-los,
Reviver nossas refeições infantis,
Sentir seu calor maternalmente erótico.
Desejamos em sonhos diurnos, noturnos, quiméricos.
Sabemos o óbvio de todos os corpos femininos.
Sabemos, sabes, sei-os —
E inevitavelmente os queremos:
Com todas as suas fragilidades cutâneas, carnais, felinas.
Sim, amamos, sem medidas (nem tamanhos),
Naturalmente, instintivamente , brasileiramente...
Mas sem afetação psicológica —
E atestados do INSS de que não somos tarados.


*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

domingo, 9 de setembro de 2007



Ciclo urbano*

Os idiotas interioranos
sonham em ir para a capital.
Os capitalistas em ir para o “Coração do Brasil”.
Os neuróticos (além de às putas) para onde se fale inglês.
E los gringos, com que será que sonham?
Em passear de submarino por um rio marciano?
Que nada:
sonham em ser idiotas interioranos.


*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

sábado, 1 de setembro de 2007














 
Eletrochoques*

Sou contra a revolução pela revolução.
Revoluções devem ter metas atingíveis.
Pra que gastar energia
dando eletrochoques em defuntos?
Os terceiros mundos estão mortos
e em adiantado estado de putrefação.
Minha pátria? Mais ainda!
Esse nordestezinho-agrestal? Mais ainda!
Minhalagoazinhas? Mais ainda!
Penedos, Jaboticabais, “minha terrinha”?
Muito, muito mais ainda!

Nos Esteites, nas Oropas, nos Japães
existe vida intelectual-raciocinante
e mesmo assim continuam buscando a morte —
nas mais diversas formas de suicídio.

04/05/90

*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

sábado, 25 de agosto de 2007

















    
                  Enigmas*

           Anfisbenas
           transbordal
           bendegós
           NASA
           tabela de co-senos
           dificuldades rácio-lógico-ordenal

Decifra-me
ou me devoro
e aqui pra nós: pelo amor de Deus!
— se não morro de fome!

*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Verso maior



Minha estrela

Nasci pobrezinho, qual ave do bosque;
Eu tenho uma estrela que Deus me guiou,
— Um cetro supremo e sublime da Artista ―
E nem por impérios tal estrela eu dou.

Eu trago na fronte tão loiro diadema,
Mais loiro e mais lindo que a luz das manhãs!
O sol me desperta em meu leito de espinhos,
As flores dos campos são minhas irmãs.

Debalde a riqueza me cobre de insultos,
A inveja tropeça na linha em que vou,
Eu tenho uma estrela radiante de Artista,
É um timbre infinito — foi Deus que timbrou.

Sou órfão de amores, sou pobre de afetos,
— Não tenho carinhos jamais de ninguém —
Eu tenho uma estrela suprema de Artista
E tenho uma glória que muitos não têm.


Sabino Romariz*

*poeta maior penedense (1873-1913).

sábado, 18 de agosto de 2007

Do livro "Ruas e rios" (continuação)
















 
 Meninos (do bairro e do barro) vermelhos*

Os meninos do bairro vermelho
não são comunistas não
São come dores do barro vermelho
que a pátria cria
Pálidos canibaizinhos, antropófagos literais
de en carnados barrocais.


* Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.

sábado, 4 de agosto de 2007



De Toupeiras e Túneis Lendários*

Disse-me um amigo
(e aos loucos cabe a essência das coisas verdadeiras)
que vieram ao Brasil os frades
não para sagradas palavras pregarem
na dolorosa rotina dos deveres pastorais
mas para largos buracos cavoucarem
tal qual toupeiras divinais
— profundos túneis imaginários
nas terras brasileiras.


21/08/90

* Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.


Grama ti cais*

Sempre amei os gramáticos
— dóceis velhinhos de lindas cabeças branquinhas.
Nunca conversaram com o povo
nem sabem onde ele mora...
Mas falam muito bem sua língua,
defendem com unhas e rugas suas cadeirinhas.
Não sei se devo chorar a língua — que é morta —
ou a eles, que a querem assim, defuntinhos.
Ambos, certamente, merecem nossas mais sinceras
condolências.


* Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.









 
Perestroika*
 
Mil vivas a Gorba
(e sua manchinha craniana)
pela capacidade (insana?) de invalidar
anos e anos de utopia...
Marx, meu velho, tua fome foi em vão...
Camarada Lenin, dorme... tua luta foi em vão...
Trotsky, pobre de ti... tua fuga foi em vão
novamente...
Stalin, Stalin... tua megalomania teve por fim
alguma serventia.
Mil vivas ao triunfo do egoísmo humano
e sua apologia.
Uma prece fúnebre ao sonho impossível
da igualdade humana...
Que venha a perestroika da vizinha...

*Poema assinado sob o pseudônimo João da Rocha.